O casaco

 

 

Eu o teci um dia. Um casaco de lã, para aquecê-lo. E eram milhares de pontos que as agulhas trançavam na dança do tricô. Muita atenção nas laçadas milagrosas que realizavam a façanha: fios e fios se fundiam num tecido espesso e morno, que virou um traje para seu corpo.

Corpo que eu tive nas mãos, enquanto voava na arquitetura de seu casaco azul. Eu o moldava com meus dedos ágeis de amorosa fiandeira.

Cada ponto era uma prece apaixonada por cada ponto de sua pele. Ficou plena de energia a malha que ganhava a mágica extensão, escapando-me das mãos.

Foram dias de tecer a vida em fios que o prenderiam no azul-petróleo do casaco.

E ele o vestiu pela cabeça, desajeitado como ficam os homens provando vestimentas. Serviu como luva, ajustando-se, molemente em seu dorso. Traje de passeio, para as noites geladas. Pelas ruas, meu abraço abrangia-lhe a robustez aquecida pela lã macia.

E eu orgulhosa de fazer-lhe uma veste, gerada pelas minhas mãos, como se eu cobrisse o primeiro homem do paraíso, com o tecido original.

Ele gastou esse casaco no uso. Apaixonou-se pelo presente símbolo genuíno de uma ternura cariciosa.

Virou roupa doméstica. De dormir no sofá. De ler. De tomar chocolate quente, na cozinha.

Os punhos começam a puir, de tantas lavagens e de atrito com o mundo.  Mas, no guarda-roupa ainda é seu traje mais importante. 

Meu receio é o casaco, como tudo o que está no tempo, se desfazer, voltar a ser fios, tornar-se farrapo. Melhor guardar. Como uma lembrança para depois. Ele não concorda, no entanto...

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 20h58 [   ] [ envie esta mensagem ]




Pessoal! Meu presente continua lá, na Adelaide: www.meublog.net/adelaideamorim

Genética de “mim”

 

tenho o nome comprido

responsável e exigente

externamente interior

 

produto de entrelaçamentos

ajustes

genealogias

dos que agiram sem mim,

 

não me ajusto com ele

 

ele diz muito prá mim

da ferrugem do tempo

e  do peso das cobranças

 

não o renego,

mas é pseudônimo de mim

 

tiro-lhe as algemas,

inominada,

e provisória,

escolho um apelido

que hoje me identifique

a mim.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 09h54 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

Olá, pessoal. Andei longe de vocês, nesses dias de feriado prolongado...

Prometo colocar-me em dia, com as costumeiras respostas aos leitores e com as visitas aos amigos.

Queria contar-lhes do presente lindo que ganhei da querida amiga Adelaide! Querem saber? Está no blog dela: www.meublog.net/adelaideamorim

Questão

 

procuro

o que está por trás

de todos os cotidianos

entre sóis e luares

e mundos estelares

 

na inata curiosidade

que me constrói

perguntas

e corrói meus dias

 

na minha mão

na pele que me apalpo

sei a ponta do iceberg

na afirmação

de que o Tempo-

o tempo não existe_

sou eu que me destruo

nessa obrigação de viver.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 10h31 [   ] [ envie esta mensagem ]




Diferencial

 

atinei com isso:

_sou mulher de segunda-feira

dia de recomeço

no habitual calendário

 

não quero o descanso de domingo

não quero descansar em dia marcado

meu repouso só existe na solidão

que eu mesma produzo

 

_sou mulher de irrequieto pensar

e construo mundos prá dentro

de mim

 

aprecio a distração

de segunda-feira

quando todos se afainam

e não me percebem

na minha invisível

movimentação.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 14h50 [   ] [ envie esta mensagem ]




Transformação

 

 

alegria de te dizer

lá do fundo, das entranhas

te amo, te amo

 

e por ti saúdo

o menor inseto

e o verme que rasteja

 

por ti quero crer

em perenidade

aprender salmos e hinos

 

por ti quero a inocência

e o êxtase da crença

de que Deus criou

aquela cachoeira que vimos

e que nos aspergiu gotas

de bênçãos e nos enviou

(até isso me fizeste)

o terrível e maravilhoso

estrondo de uma voz

que nunca poderia

ser humana.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 09h53 [   ] [ envie esta mensagem ]







 
 
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