
O casaco
Eu o teci um dia. Um casaco de lã, para aquecê-lo. E eram milhares de pontos que as agulhas trançavam na dança do tricô. Muita atenção nas laçadas milagrosas que realizavam a façanha: fios e fios se fundiam num tecido espesso e morno, que virou um traje para seu corpo.
Corpo que eu tive nas mãos, enquanto voava na arquitetura de seu casaco azul. Eu o moldava com meus dedos ágeis de amorosa fiandeira.
Cada ponto era uma prece apaixonada por cada ponto de sua pele. Ficou plena de energia a malha que ganhava a mágica extensão, escapando-me das mãos.
Foram dias de tecer a vida em fios que o prenderiam no azul-petróleo do casaco.
E ele o vestiu pela cabeça, desajeitado como ficam os homens provando vestimentas. Serviu como luva, ajustando-se, molemente em seu dorso. Traje de passeio, para as noites geladas. Pelas ruas, meu abraço abrangia-lhe a robustez aquecida pela lã macia.
E eu orgulhosa de fazer-lhe uma veste, gerada pelas minhas mãos, como se eu cobrisse o primeiro homem do paraíso, com o tecido original.
Ele gastou esse casaco no uso. Apaixonou-se pelo presente símbolo genuíno de uma ternura cariciosa.
Virou roupa doméstica. De dormir no sofá. De ler. De tomar chocolate quente, na cozinha.
Os punhos começam a puir, de tantas lavagens e de atrito com o mundo. Mas, no guarda-roupa ainda é seu traje mais importante.
Meu receio é o casaco, como tudo o que está no tempo, se desfazer, voltar a ser fios, tornar-se farrapo. Melhor guardar. Como uma lembrança para depois. Ele não concorda, no entanto...
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 20h58
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