Descanso?

 

Há muito tempo venho postando aqui fragmentos do que costumo chamar  minha “cosmovisão”. E o faço em versos, na maior parte das vezes. Então, os chamo de “poemas”.

Pretendo agora deixar de  postá-los ( não de escrever, porque isso significa, talvez, para mim, o mesmo que respirar...), por um tempo indeterminado.

Não, não é um período de descanso, entretanto. Ao contrário, é um período de mais elaboração mental minha, já que me vejo envolvida  num Curso em que trabalhos acadêmicos nos são solicitados quase que semanalmente. Não estou dando conta deles.

No meio disso tudo, ganhei uma viagem de passeio.

Agora, então, que dela voltei, tudo se acumulou de fato...

Deixo a todos vocês, que sempre foram tão receptivos aos meus escritos e que sempre me demonstraram carinho e generosidade, meus sinceros agradecimentos.

Até a volta.

Meu grande abraço.

 

Dora Vilela.



 Escrito por Dora Vilela �s 20h31 [   ] [ envie esta mensagem ]




Prosaico

 

 

Tinha medo de saci,

de bruxa e de assombração.

Minha mãe me acalmava

me enganava:

são estórias que o povo inventa,

aí eu ficava com medo do “povo”...

Ah! a coisa abstrata!

Todo abstrato tinha esse poder

de me deixar sem chão prá pisar!

Compreendia a flor, a chuva, o mar,

confortavam-me o boi e a formiga,

e o café com leite.

Podia constatar o som e o cheiro,

me apegava tranqüila.

Em anjo nem me atrevia a pensar.

Meu mundo era sem metafísica.

Ainda tenra e pueril,

vivia a equilibrar o pensamento

que teimava em filosofar.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 16h33 [   ] [ envie esta mensagem ]




Despertar

 

Desajeitada, torta,

numa terra estrangeira,

num ar rarefeito,

meu caminho na vida se faz contrariado.

 

Desarvorada, tonta,

com gestos estranhos,

na mímica surda,

me faço de viva.

 

Que lugar é este?

que papel ganhei

no teatro do mundo,

na geografia do palco?

 

Quem me chamou,

me despertou, me arrancou

do meu sono milenar?

 

Não me entendem,

nada entendo do

que sou ou do quem sou.

 

Se durmo, assim mesmo vivo,

mas, se vivo, não sonho,

apenas sigo, já que acordei.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 07h42 [   ] [ envie esta mensagem ]




Testamento

 

Meu bem,

sabes tão bem

o bem que te quero

que de bem

o saberes

tanto bem

me fazes

que o meu

único bem

é te possuir

como o bem

que figura

no meu inventário

que de bem

só a ti deixará,

meu bem...

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 09h19 [   ] [ envie esta mensagem ]




Observando

 

Enquadrada à janela,

sou aquela que olha.

Recolho as vidas passantes,

exultantes de manhãs.

Fragmento a eternidade

em cada caminhante,

não são eles que passam,

é meu olhar que os ampara.

Transfiro meu alento

para fora de minha janela,

sou fotógrafa do mundo

e minha lente foca sensível.

O que não posso,

minha visão gera.

Capto-me no que reproduzo

e reproduzo o que o ouvido

me sopra.

Da minha janela,

recrio o que é criado,

e, sendo, eu mesma, criação,

creio no que crio.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 18h41 [   ] [ envie esta mensagem ]




Ao poeta, Antoniel Campos, que lança hoje seu livro “a esfera”.

 

Profissão

 

Escrever versos,

nas imagens que engolem palavras,

nas metáforas desafiantes,

seu “métier” de fabricante

de vida concentrada.

 

Linhas curtas e econômicas,

densas de significações,

carregadas de símbolos,

seu labor de ínterprete

da natureza implícita.

 

Encadeamentos coesos,

escassos de sensatez,

inundados de sabor,

seu ofício de mestre

da arte desapercebida.

 

Temas vários, encobertos

por visões depuradoras,

por noções condensadoras,

seu trabalho de regente

de orquestra de gigantes.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 13h07 [   ] [ envie esta mensagem ]




Significante

 

Amarro palavras

sem nexo aparente,

porque me aposso,

talvez, apenas,

de sua sonoridade...

a palavra_ só um arcabouço

oco de sentido,

_ letras reunidas,

unidas à toa

em busca das realidades.

Por que a palavra flor

significa o que chamamos

flor?

E por que o amor

é assim denominado?

Quero trocar

_quem me proíbe?_

e chamar o amor de flor

e por flor designar o amor.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 19h18 [   ] [ envie esta mensagem ]




Salva-vidas

 

Você

admira minha leveza,

se enternece com minhas asas azuis,

abençoa meus vôos de anjo,

bendiz minha insensatez,

aplaude meus arroubos,

anseia por meus vocativos,

embriaga-se com meus cantos,

contempla minhas manhãs,

diverte-se com meus desvarios

 

e me ama e me quer e me deseja...

 

Você

me aplaina os caminhos,

me oferta meu pão,

me cura as feridas,

me abre as cortinas...

 

Você,

minha garantia de vida,

meu salvo-conduto,

meu lastro e minha âncora,

neste mar de arrebentação...

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 16h27 [   ] [ envie esta mensagem ]




Ambíguo

 

Sou ligeira de plumas feita

e sou afeita a digressões,

mas me aciono a chave

constante do pensar,

me misturo as sensações,

me emaranho em sutilezas

e me enredo em raciocínios

de linha continuada,

e preciso de vôo

e urgencio a canção

mais brejeira que seja,

nestes momentos

de culto à razão,

me penitencio,

agindo fagueira,

no entanto,

me mordem

as idéias pré-feitas

na vontade de viver

e de desviver.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 09h58 [   ] [ envie esta mensagem ]




Prisioneira

 

Ah!  máquina insaciável,

que tanto cansaço me trazes,

que nunca te satisfazes,

nem com o suado pão,

nem  com o ar respirado,

nem mesmo com toda a água.

 

Exiges tanto e tal zelo,

para em troca só me dares

este desventurado prêmio

de estar viva e torturada.

 

És meu corpo sempre pleno,

carregando a duras penas

minha alma alimentada

com os sobejos que lhe jogas.

 

Oh!! corpo que me consome

as energias tão caras

do grandioso, precioso dom

da eternidade encarnada!

 

Se vives com tal cuidado,

ao menos, deixa-me livre

de tua caverna escura,

por um minuto que seja,

naquela impossível mágica

de estar viva e voar.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 10h34 [   ] [ envie esta mensagem ]




Para Márcia Maia

 

 

Insolúvel

 

Mágoa dessa finitude

que me faz fingir de alegre

e me torna o corpo leve,

me faz transformar em solene

o fugitivo e o andante,

e aceitar os ritos,

os enganos ridículos,

os ensaios do palco

do teatro

que é de todos nós.

Por que o sorriso?

por que a dança?

por que o pacto com o corpo?

e a crença no gozo passageiro

como uma solução?

A consciência é uma chama

que num sopro se esvai.

Finitude é nosso nome

que repito

magoadamente.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 19h03 [   ] [ envie esta mensagem ]




Um logro

 

Tanto fizeste,

voaste, adejaste,

que um dia, tonta,

te coloquei na poesia.

 

Esvoaçaste, pousaste

nas varas do meu coração,

que, estonteado, sorria

dos teus volteios de ave.

 

Mas, do beija-flor que eras,

andorinha ou cotovia,

te transformaste, em seguida,

em garras de águia e rapina.

 

Da tua leveza de pássaro,

nada restou no poema,

só tua falsa pena,

que me faz pena de mim.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 16h07 [   ] [ envie esta mensagem ]







 
 
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