à antiga

 

filme musicado

última fileira

drops de canela

mãos dadas

olhos na tela

coração intranqüilo

o mocinho me ama

_e a mocinha corresponde_

lento, lento

corre o script

do lado de cá

e os beijos

se intercalam

entre as cenas

de “crescendos”

entre os takes

mais calientes

e holywood

cumpria bem

sua função

para  amantes

tão ardorosos

que ainda_ e apenas_

viam no filme

a expressão

cinematografada

do próprio enredo.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 18h23 [   ] [ envie esta mensagem ]




Jeito de enganar a angústia existencial

 

 

 

 

Quando alguma dor dá de doer em lâmina de aço, me encomprido em pensamentos, daqueles indirecionados e torcidos feito cobras coleantes, e nem sei onde é que se iniciam e parecem assim filosofias que desde que o mundo nasce estão largadas por aí e é só a gente ficar doente de existência já lança a mentalidade nelas e finge que são novas e frescas e  tão particulares, quando, de verdadeiro mesmo, são é antiqüíssimas e gastas.

Reinventando o pretérito e remendando a trilha andante, entro onde não sou convidada e ponho a envergadura de tudo o que é vivente, que experimentar o alheio faz bem no se provar  divergências da natureza.

Viciada em linhas retas, me surpreende a calmaria repousada dos giros do pensar que penetram no mendigo desmascarado que só tem a cama molhada de lua e o gosto de comer intermitente, na paciência tibetana, e nem monge ele treinou de ser.

O fraterno dele transita sutil na idéia relanceada que a gente sempre guarda não sei em que intimidade do eu-próprio e que liga em corrente de essência esse desvalido ao nosso pé.

Sou refém desse frágil que me segura e me forceia no ponto de vista da desnecessidade do ouro e das sobras, porque as horas de existenciar carecem só de parca e pequena quantia de teres e haveres.

Minha dor iniciante se afina, no princípio de esvoaçar com tais divagamentos, e meu mendicante irmão me solta em estado esvaziado do fardo das esperas vantajosas que já são em si  uma forma de espoliar o bem da vida.

Meditadamente, o sofrer escorrega manso visto que adveio na duplicação pela in-sapiência que a gente vai alargando nos passos contrários, que de sabedoria desse teor é que tinha que ser a caminhada do devir.

Palavrosa é essa teia de arranjo das idéias voadoras e outros meios não existem  de arrebanhá-las a não ser as ferramentas dos verbos.

Não é que a dor passa, mas o pisar é macio, quando se interna na vida, com porte de coisas de proveito na bagagem  do dia-pós-dia.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 10h50 [   ] [ envie esta mensagem ]




Um mini

 

meu desejo de poesia

é querer tom de rouxinol

boca de profeta

métrica de bailarinos

e ausência de mim.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 11h47 [   ] [ envie esta mensagem ]




(Para o amigo Sobreira que gosta de “prosa”)

 

Simplesmente natural

 

Dentro de casa, distribuo vasos, com flores, como suaves cativeiros de seres domesticados e livres. Convivo com eles em silencioso colóquio.

Já houve, mesmo, uma flor especial.

Ela me dividia a vida em etapas, regulando-me o tempo pelas estações do ano.

Andava um dia pela rua e vi o vaso grande e colorido na floricultura.

Foi amor à primeira vista. Comprei-o em plena floração.

Enchia-me os olhos e aquecia-me o espírito.

Era uma flor caprichosa. Apesar do nome “flor-de-maio”, escolhera julho para a florada única e anual.

Durante o resto do ano, era apenas vaso, terra e galhos verdolengos.

Cuidava dela e a protegia como a um doente que não convalescia nunca.

Lá pelo mês de junho, começava a rodeá-la e a fazer a sondagem minuciosa. De repente, com um sobressalto, descobria o incipiente broto.

Um só, bem disfarçado, na ponta do galho. Era uma ligeira saliência apenas, mas eu sabia que seria o início de tudo.

Os dias se passavam e os brotos se multiplicavam. Então, as extremidades dos galhos se cobriam de intumescências. Os botões explodiam e as flores desabrochavam num rosa-avermelhado. E era uma festa de cores.

Deslocava o vaso de seu canto de doente e o depunha em local bem visível.

Minha flor-de-maio-julho não me decepcionava.

Esplêndida, se oferecia aos olhares.

Como uma grande artista, mantinha-se anônima e obscura, enquanto a própria obra se tornava dádiva para o mundo.

Eu então me apossava dela e a apresentava ao público. Fazia seu “vernissage”. Tornava-me sua empresária e lhe colhia os louros.

Parecia se exibir orgulhosa.

No entanto, não tinha consciência da beleza que ofertava, a consciência que a faria perder talvez parte desta beleza.

Apenas estava ali. De galhos estendidos, pendurados, ofertantes. As flores encarnadas, semi-róseas, nas pontas.

Majestosa e humilde, paradoxalmente.

Enternecendo a  alma contemplativa.

Eis sua missão total, completa, cumprida até o fim.

Depois, lentamente, ia murchando. As flores despetalavam, tombavam uma a uma.

Os galhos secos permaneciam exangues, sem marca de dor.

Seu tempo havia passado. No outro ano, o esplendor voltaria.

E ela esperava, paciente, no seu mistério vegetal, a próxima florada.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 12h34 [   ] [ envie esta mensagem ]




Savoir-vivre

 

nasço todo santo dia

na surpresa de ser,

nasço em fragmentos,

peças de quebra-cabeças,

e vou remontando o dia,

gero-me devagar

no gosto do pão

e no odor do sol,

embalo-me amorosa

em lembranças iguais

que já foram de pão

e de luz mais feliz,

construo-me mais

no agora que sou,

permito-me doçuras

de mel e langor

esgotando morosa

a hora comum,

meu gesto perde

o hábito e fica

longamente no ar,

renasço todo santo dia

mais morna,

mais preguiçosa,

mais luminosa

de tanto sol,

que já estava lá

quando nasci.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 10h47 [   ] [ envie esta mensagem ]




Solidarizo-me com o meu povo brasileiro.

Meus versos estão de luto.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 11h53 [   ] [ envie esta mensagem ]




descrição de traços

 

sou mulher simples

de poucos atributos

orgulhosa das contradições

que ocupam meus dias

entre a manhã do bem-querer

até a noite de amar

tenho braços de abraços

e boca de boas-vindas,

nas veredas de sábios

desencaminhei os pensares

_ encasulada em modelos_

preferindo as ermidas

do meu desatino próprio,

errando curvas

recolhendo acasos

desconstruindo no caos,

que não quero encontrar-me

para encaixar-me no certo

dar as buscas por findas,

desonroso caminho

para quem ama a poesia.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 15h49 [   ] [ envie esta mensagem ]




Eu era...

 

era namoradeira _

de gente e de fatos_

 

era contadeira_

de histórias e de logros_

 

era curiosa de_

inícios de inícios_

 

era atenciosa de_

acompanhar rastros_

 

era sequiosa de_

heróis e milagres_

 

era uma caldeira de sensações_

 

e nem queria,

nem temia,

nem sabia

que seria

apenas

uma ínfima

parideira

de versos

de tostões.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 16h02 [   ] [ envie esta mensagem ]




Perdas

 

Procuro expressão_

antiga_ porque ela está lá

no quintal de casa

no chão de terra

com bananeiras

onde o saci

morava atrás

o céu mandando a noite

e eu me fabricando gente

de pouco entendimento

e muita aptidão

de observar por baixo

das coisas

com olhar de primeira vez

e de tão perto!

o mundo elevado não contava

para minha miudeza_

talvez essa proximidade

que se distanciou

desregulou meu olhar

e crescer foi me perder.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 23h00 [   ] [ envie esta mensagem ]




Minha novidade

 

submersa em questões,

dilato meu aprendizado

que descobre você

 

que é você prá mim

senão a vida desprovida

de toda a mentira?

 

e que mentira é essa

senão as coisas sem ênfase

e sem realce?

 

_essas coisas que você

me devolve com viço_

 

você recoloca a poesia

na minha xícara de chá

e no meu pijama azul

 

você restaura meu desejo

me enseja meu beijo

me impele a voar

 

se aloja em meu sonho

faz vigília em meu sono

e me amanhece em luar.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 20h18 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

Definição que se entende

 

O mundo é um leque.

Fechado.

Só quem sente um calor danado

abre este leque.

E o agita.

E recebe o vento refrescante

vindo de todos os mares.

E a mensagem soprada de todas as coisas.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 18h38 [   ] [ envie esta mensagem ]




Falsidade

 

entreabrindo o pensamento

descubro que as coisas

se passam entre mim e o tempo

e doravante faço

minhas escolhas de sim

de tanto acolher  o não

que me habitou em mim

e não me deixou

sentir a brisa

não me permitiu

o ardor dos desertos

e minha epiderme

é nua

de experiências ardentes

que fez de mim

este ser abstrato

que logicamente

conduz a vida pensada

pesada, medida, contada

sem estórias de fadas

que só sabe o amor filtrado

em idéias reconfortantes

a existência cabendo

em sentenças gramaticais

e frases de efeito.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 10h44 [   ] [ envie esta mensagem ]




Passando a limpo

 

isto de escrever

faz bem à alma

enviesada, torta,

que quer se corrigir,

endireitar a postura;

tenho a alma míope

e estandardizada,

entulhei-a com passados

um tanto cristalizados

que hoje releio e rasgo,

alguns, com amargor,

outros, mais levianos,

com alívio

disciplinador,

que minha alma

tem que ser livre,

leve, esperta

e aberta,

usar lentes novas

de alvoreceres,

de alvíssaras,

de saudações

e de celebrações.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 18h43 [   ] [ envie esta mensagem ]




Em sã consciência

 

inaudito prazer é

enxergar a minha verdade

nua, crua, doída,

ante a pedra que ultrapassei

e que não coloquei

_ apenas estava ali_

e eu a sofri;

saber que um choro

pode estar além da lágrima

e um riso, aquém da boca;

perceber que a natureza

apenas tem seu valor

na medida em que

eu a faço valer;

aprender que o sonho

é minha mente

que não repousa

e que meu viver é

somente

o conta-gotas presentificado

do relógio do tempo.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 19h30 [   ] [ envie esta mensagem ]




Vivência

 

Na ladeira que sobe e desce,

mão na mão, olhar perdido,

se sentindo, se medindo,

não sabem se estão subindo,

nem se tocam o leve chão,

são enamorados, são passarinhos

que experimentam as asas,

levando sementes,

no ensaio do vôo;

invisíveis, sozinhos,

heróis sem façanhas,

encantadores e encantados

portadores de ideais;

o mundo é ficção

no imponderável

que os cerca;

na roda viva da vida

tomam  a sua vez;

miram-se no próprio mistério

ciosos de um amor singular

e da auto-suficiência;

mão na mão se carregam,

se mimam, se encostam,

aproximando os opostos,

resumo da criação;

são inacabados, são fases,

são partes que se procuram,

são ímpares que se juntam

no mágico par, que se basta;

inocentes e trágicos,

inconscientes, incautos,

mão na mão, olhar perdido,

agora sobem a ladeira

que um dia, íngreme,

ainda descerão,

mão na mão, olhar no chão,

à procura da marca

dos passos,

que no ar deixaram, então.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 13h37 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

 

Iniciação

 

então o duelo era sem espada

só avanços e recuos

no espaço do silêncio

 

a flor rubra não era

na pálidas faces

mas na pele imaculada

 

o silêncio penetrou

a espada se manchou

a flor desmaiou

 

e a pele se desvirginou.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 20h35 [   ] [ envie esta mensagem ]




sina

 

 

e a terra seca se fende

ofendida

e os vãos se unem em caminhos

subterrâneos,

subcutâneos,

os pés rachados teimam

se arrastam sobrevivendo

pelo afã que ainda é verde

gotejante

pelo anelo do peito

que não sucumbe

que não é bicho ainda

e subjaz

cozido do barro

desta mesma terra

que produz corações

na forma de torrões

de moldes vazados

mais rijos

do que  a rijeza

deste solo de sertão.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 19h59 [   ] [ envie esta mensagem ]




Parecendo bonança

 

Acabou-se o amor

e a sua possibilidade,

deu-se talvez naquele momento

daquele dia que nasceu morto,

ah! o coração tem limites,

e o humano querer

não alcança tamanha dimensão,

o sol perdeu o calor

que nos abrasava a todos,

amargo ficou o rosto,

o sorriso,

a mão amiga sem seu amplexo,

tudo se diluiu

em águas mornas de poços,

só o outono de folhas mortas

no tempo sobreviveu;

a boca estancou o grito possível

quando é moribundo ainda o amor,

nada permaneceu

entre os gélidos ciclos lunares,

a inesperada escuridão

que empanou o brilho do olhar

deixou apenas

a penosa sensação

de plácida calmaria

que sempre se segue

ao esplendor que se esvai.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 19h33 [   ] [ envie esta mensagem ]







 
 
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