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Aparências
A porta se abria. Com o corpo de ventania, ele passava. A esmo, atirava a mochila,
arrancada das costas. Jogava-se displicente no sofá. Sem usar as mãos, tentava tirar os tênis, com movimentos rápidos das pontas dos pés. Mais um lançamento de objetos. E os calçados voavam. Queixas de calor, falta de sorte no futebol da tarde. Em menos de dez minutos, desligava-se. Dormia pesado, suarento, sobre as almofadas.
A vez da minha contemplação de um adolescente tranqüilo, ressonando, imerso na inconsciência satisfeita da pouca idade. Pareciam longe os infinitos liames que o ligavam a mim. Vendo-o, ali, sentia o quanto éramos seres à parte, cada qual dentro de si.
O mundo o chamava insistentemente. Ele, fascinado, deixava pouco a pouco meu amplexo. Ensaiava a medo o equilíbrio das asas. Saía e voltava, trazendo o frescor de fora e de dentro.
Eu aspirava o perfume do novo, através dele. A princípio, me assustava.A agitação e a pressa perdiam o valor para mim. E ele era um moto perpétuo e um vigor a transbordar para fora dos membros desajeitados. Quietação só no sono.
Aproximava-se de mim, às vezes, profundamente, para, momentos depois, se apartar, interpondo léguas de distância. Procurava ainda minha mão, como nos primeiros passos. Mas, seus dedos já se escapavam nos derradeiros exercícios de aprendizado. Voava cada vez melhor e mais alto, iniciando sua própria viagem. Somente buscava em mim o impulso, para o percurso atraente. A transição provocava em ambos uma angústia surda e inevitável.
Ele nunca me pertencera, na verdade. Mas, já houvera o tempo de um só ser que éramos.
O corte do cordão umbilical vai espalhando sua dor, gota a gota, nos vôos repetidos, nos adeuses do cotidiano.
A força da vida o levou em vôo longo de ave amadurecida. Eu fiquei. Ele volta sempre, e, nos intervalos, sei que minha mão conserva, entre todas as que buscou, o mérito intransferível de haver sido a primeira a ampará-lo.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 15h07
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Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la.
Alberto Caieiro
Se penso,
não compreendo
mas, me prendo
nas algemas das letras,
se me deito ao sol
fico feliz
no intercâmbio
e entendo,
mas, não me explico
e ninguém o saberá
pela minha boca,
se amo
fico inocente
e muda
porque amar
é como deitar
ao sol
e não falar nada.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 20h08
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Hipervisão
pétalas soltas
ainda compõem
o imaginado conjunto
daquela flor
que despetalou
mas existiu
e perfumou.
Tradição
de sol a sol_
somente figura
de uma expressão
lingüística
para quem
sente apenas
o frio na pele
que está sob
o sol.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 20h18
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Sem rumo
entrementes
há o desafio
de avançar
sem bússola
porque
os pontos cardeais
variam nos versos
e a agulha imantada
só aponta o coração.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 10h21
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Pas possible
poesia se faz na noite do eu,
talvez,
(são furos da alma desarmada),
gotas fecundas,
sombras escorregadias
de luta perene, sombria,
se nelas não penso
ficam nuas, jogadas ao vento,
vou caindo,
levantando,
colhendo,
escolhendo
elementos, escombros,
mas tão óbvios...
não consigo ser poeta,
não fujo da certeza,
nunca.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 20h12
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Infância
e eram dias de festas aqueles,
tão puros, ingênuos, fantásticos,
prenhes de luz e tontura,
carregados do mistério da dor,
sem mágoas, nem ódios,
a escorrer, feito areia, na ampulheta,
sementes ocultas do vindouro
são agora incertezas doidas
no vão da vida inculcadas_
serão sobra ou nada?
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 14h49
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Rede da Sorte
Pescador, moreno e livre,
ingênuo da terra dura,
ladino, matreiro, sóbrio,
no balanço do barco e do mar.
Na rede que lanças,
na mão em que a soergues,
a altaneira destreza
faz gosto e visagem.
Teu porte moldado
na rudeza da lida
contrasta com a vida
de leve vivida.
Só queres o peixe
das ondas brilhantes
e o trago engolido
nos bares vadios.
Tens sorte e fortuna
na escolha da parte
que te tocou na partilha
das regras do jogo.
Só o mar te alvoroça
e a moça viçosa
que de longe te espreita
na espera ansiosa.
Na rede em que apanhas
o fruto e o mistério
alcanças teus sonhos
e os apelos do cio.
Pescador, és dono do mundo
sem de teu nada ter,
navegas abarcando o todo,
com o largo abraço dos remos.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 13h53
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parceria
vem que eu te conto
murmurejos doidos
que meus lábios
colheram de mim
e vê se te calas
ao som estrangeiro
que ainda irás decodificar
nos jogos que jogaremos
e_ com certeza_
me descobrirás
a vivente alma
que meu corpo
esconde, em prisão,
e só a ti escolheu
de parceiro tenaz
e meu campeão
que me ganhará
no xeque-mate
ou no royal
straight flush.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 13h08
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Pensamentos desencaminhados
Já outros disseram alhures_
poesia não é canção de ninar
nem encomenda de efemérides
tampouco louvação a mortais
ou a imortais_
poesia nasce do conflito
do atrito
do desacerto
e do grito,
não tem hora marcada
nem preferência de local,
surge da humana miséria
e da iníqua condição,
do efêmero luzir
de cada ente que passa,
alimenta-se da fome
da própria fome dos sonhos,
nutre-se do desencaixe
entre a língua e o corpo,
mantém-se da fugacidade
que o mistério das coisas
rápido lhe enseja,
_ poesia é apenas
e somente
o anzol que pesca
abaixo da superfície
a realidade distraída
no oceano da vida.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 16h08
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Fluorescências
Tinha memória fraca para datas e números. Do fato acontecido, recolhia certas minúcias desapercebidas dos outros. O timbre do riso de alguém, a dureza do assento onde se apoiava, um vento mais cálido soprando, miúdos nadas lhe fixavam na mente e formavam o quadro do instante lembrado. Mais sensação que idéia.
Já agora lhe vem chegando, estranhamente, o canto de uma cigarra, a se arrebentar no topo da árvore, enquanto caminha, balbuciando palavras, como mantras. Caminha assim, repetindo frases desconexas, cujas relações fazem sentido, de alguma forma.
Um pé após outro, as mãos ao longo do corpo, imagina-se destruindo o caminho. Se olhasse para trás, não existiria mais o que havia percorrido. Tolices. Talvez.
Respira largamente, aquecendo o ar gelado nas narinas, soltando-o devagar pela boca entreaberta.
A cigarra não está lá, porém o som estridente martela-lhe a memória com a presença da tarde de um verão já esgotado.
Era ao entardecer ou ainda lusco-fusco. Uma languidez morna umedecia o ar. Sem a claridade natural do dia, na iminência das luzes frias da eletricidade, ela flutuava no interregno. Fora do tempo.
Caminhava então, como agora, e havia o crepúsculo, o calor e a cigarra suicida, prenunciando o dia vindouro mais quente.
Havia sua juventude e as utopias risonhas.
Andava. Sentia as pernas abocanhando o caminho e lançando-o para trás. Crianças passavam correndo por ela. Falavam, gesticulavam e riam, ofegantes, num ritmo veloz. Quase a tocavam, mas se desviavam a tempo, entretidas no diálogo só delas.
E ela o viu, pela primeira vez. Sentado num banco, fisionomia despreocupada, olhando aleatoriamente as pessoas. Passeou a vista pelas crianças e, de súbito, a fitou. Associou-a à visão das travessuras e fez-lhe um trejeito de sorriso.
A cigarra arrebentando, as crianças correndo, o sorriso dele adejando...Tudo se diluiu nas passadas de caminhante.
Ficou a cena, a sensação da cena.
Seu rumo apontou para ele e seu sorriso a acolheu.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 17h10
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Charada
com energia selvagem
afasto o morno,
o quieto,
o certo,
quero o pulsar
da crueza,
da inteireza,
da fogueira,
e_ enquanto estou sendo_
me interrompem os outros
que esfacelam a vida
(que já sintetizei)
e querem festas e fotos
confundindo atos e fatos
com encontros...
que, na verdade,
são feitos mesmo
é no silêncio
vibrante
do metal
frio
do ser.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 17h58
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Concluindo
Convocou coisas demasiadas/para acompanhá-la/solicitude, ternura e desvelo_
surpreendeu-se carente delas,/não segue,/estabiliza/engendrou liames/
sutilíssimo cárcere/
sem muros/
com buracos de janelas/
que se abrem prá dentro/
e portas sem chaves_/
cercou-se de veludos e sedas/que lhe cobrem a lama do chão,
e preparou frascos de essências/prá assepsia do ar_
não pisou a vida,/
não cheirou a vida/
não viu o sol nascer
sem filtros nos olhos/
nem apanhou estrelas/
soube delas,
antes de descobri-las_
redomou-se/aureolou-se/preveniu-se/
e nunca gritou
pela liberdade
porque nunca acreditou nela_
coou realidades/das páginas de brochuras/da estante/aprouve-se em campos
verdes de tapeçarias/
brincou com plágios de sonhos/
na areia de assoalho/
os pés não se magoaram/nos pedregulhos
chorou em lágrimas de ocasião/não teve riso genuíno/
Realeza?
Não.
Medo da falta.
E morreu
na asfixia
do excesso
de amor.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 17h58
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Exoneração
urgencio sempre
na hora parca
que me finda
que me avisa
do fim do espetáculo
que me sinaliza
inexorável
a saída do palco,
que minha cena
já foi encenada,
embora eu permaneça
invejando os atores
que me substituem
com suas falas
e me torno lenta
tiro a maquiagem
e me despojo
dos trajes
que aderiram
à pele
no meu
ato de vida.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 18h17
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