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Repentino
Sólida madrugada, esvaziada de desejos, nenhuma espera de sol sangüíneo, o céu manso em mim. Surpreendi o momento e o guardei fechado na mão; desnudei-o dos supérfluos, evitando, cautelosa, o movimento consciente. Momento meu de estar comigo, de agarrar o essencial, de mergulhar no abismo e de não retornar. No labirinto vem a dúvida_ nem sei se vale a pena melhor me conhecer. Quero ficar anestesiada. A força do momento não vem de mim, é um fiapo de luz, escapado do real, concerne a tudo o que me rodeia, mas não me inclui. O momento que apreendi_ gratuita oferta da madrugada_ não passou de um sussurro, ante o pleno grito da vida.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 16h43
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Modinha
brigue, não! só fui ali na pracinha espairecer/ vi amigas de carrinhos com bebês /que não temos mais/ ouvi risadas de guris/ vi pipoqueiro/ senti o bom cheiro/ descansei nos papos de comadres/ falei do jeito seu/ de me beliscar o traseiro/ e elas contaram os gozos e desgostos/ estava tudo azul/ se aborreça, não,/ olhe que eu trouxe de caramelo/ de lembrança/ em vermelho/ prá nós dois_ uma maçã do amor.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 12h59
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Para onde vou?
Águas rolando me deixam abismada em pensares que se tornam líquidos e escorrem a esmo...É gostoso esse tipo de ensimesmamento, quando não se tolhe o movimento livre da imaginação. Um planeta inteiro é pouco para se desfrutar dele, nesses momentos. Países e latitudes, em tudo vai penetrando o pensamento aquoso, que recolhe tanto as neves como as areias do deserto tórrido e vai coleando nos interstícios das estranhices do mundo aberto.
Meu devaneio engole aves, batráquios e floras. Traz até mim essências e aromas, enigmas orientais, coloca ao meu alcance mitos que resolvo que não são mitos, apenas verdades antigas, mal entendidas. Inscreve-se entre os gregos e volta pagão e acalmado do peso das religiões vindouras e dogmáticas. Imaginação é vôo leve e airoso. Então pode tudo e paira sobre as dores dos mártires e dos infernos terrestres. Não chamusca as asas quando penetra a maldade oficial registrada nos monumentos. Divago nas lacunas que permaneceram sem conclusão e conto minhas histórias justamente aí. Mil e uma noites não me são suficientes para a fantasia. Ultrapasso Sherazade e reconto as lendas de meu tempo de agora. Sou só alguém que olha as águas de um rio de aldeia. E que após uma circunavegação sabe que sua realidade possível é a que está sobre a ponte desse rio. E seus deuses são esses de agora, decididores dos destinos, no Olimpo deste século, construído fora das nuvens, num planalto poderoso, mas feito de barro da terra.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 17h06
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À margem
Sento-me
e o mundo se agita
à minha revelia
não interfiro
e os fatos se passam
a lua regula as marés
e_ quem sabe_ meus hormônios
a manhã obedece à claridade
coando-se na minha cortina,
o relógio segue os ponteiros,
sentada, inerte,
na segurança,
assisto ao show da vida
que não precisa de mim.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 15h47
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Então,
olho o álbum antigo
minha bisavó pálida
me olha do fundo
num ricto de desdém
estou dentro dela
mas ela nem sabe de mim
_nasci órfã de bisavó_
ela me é importante
tem a tez tão lisa
de serenidade
ela me humilha
com o olhar de vencedora
do encaixe amarelado
me desafia
com a sabedoria
de ter virado
só um retrato.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 17h18
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Sacramento
ao alcance de mim
está seu ninho
de braços de plumas
bem rente ouço
seu ritmo cardíaco
ainda densa
sua sudorese que é minha
ainda enrugados
os lençóis aquecidos
do calor
de nossas coxas
que se tornaram siamesas
de nossas bocas machucadas
que destroçaram o desejo
e celebraram a vida
mais uma vez
no ritual sagrado
dos cálices
de nossos corpos.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 20h28
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Absurdo
é esse vício de escrever
de querer mundo de borboletas
esse desejo de tudo sopesar
adelgaçar a força do vento
guarnecer as calçadas de renda
forrar de nuvens as trilhas
aveludar olhares
amaciar toques
fazer flores nos sorrisos
e canto de sabiás nas falas_
pretender delicadamente
ver renascida
das águas
e dos ventres
a perdida inocência
hoje sepultada
sem epitáfio
na beira dos caminhos.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 16h03
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Linearidade
Desde criança tinha mania de perfeição, aquela mania esquisita de detalhe, de minúcia, de coisa pequena. Gostava de desenlaçar o emaranhado de fios de lã ou linha que mamãe, na pressa, ia deixando nas gavetas de costura. Não podia ver quadro torto na parede, endireitava para cá, para lá, dava uns passos para trás, na tentativa de alinhá-los na simetria que eu imaginava correta. Enfim, sempre esqudrinhava mínimos pormenores nas roupas lavadas, manchas minúsculas, pequenos descosidos e levava ao conhecimento de mamãe, como se fossem falhas imensas que necessitassem de cuidado urgente.
Era uma obsessão inconsciente ainda pelo insignificante e pela coisa próxima de meu raio de visão e do meu alcance de mãos. Talvez porque desde tenra idade, já sofresse de miopia, que não me deixava enxergar com nitidez objetos situados a poucos centímetros de distância. Lembro-me da agradável surpresa que experimentei ao colocar óculos corretivos, pela primeira vez. Fiquei de pescoço dolorido, estupefada, ao divisar as estrelas-pirilampos no negrume antigo do céu. Até quase dez anos, nunca havia reparado em tal beleza. Passei a olhar tudo com renovada atenção. As cores, nos seus semitons, me enredaram daí em diante. Eu, que antes distinguia apenas as cores primárias, passei à percepção da gama de matizes que pode haver num simples vegetal.
Porém a esquisitice de tudo esmiuçar e procurar o pormenor, o limite, o início, passou a ser um traço de comportamento mental que me acompanhou continuamente.
Não se tratava de um mero traço de comportamento, mas de uma curiosidade exigente e disciplinada, irmã próxima de uma tendência neurotizante.
Poderia se tratar de uma neurose realmente; contudo, dentre todas as atitudes que já tomei na vida, nenhuma foi ainda comprometedora da minha sanidade mental.
O certo é que todos nós oscilamos sobre o tênue fio divisor entre a demência e o equilíbrio.
O estado normal de alguém só pode ser medido relativamente.
Então, eu poderia ser, com tranqüila aquiescência, uma neurótica, ou não, dependendo de inúmeras variáveis e pontos de vista.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 18h36
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(continuação)
Sou, na verdade, compulsivamente inquisidora e crítica. Nada me passa pelo crivo, sem que eu me detenha até onde me permite minha capacidade de discernimento, no intento de chegar às últimas conseqüências.
É um hábito terrível porque os referenciais mínimos, de que se necessita para certa serenidade, acabo deixando-os abalados e inúteis.
Enfim, vou vivendo quase sem certezas, me enfiando pela existência como a desembaraçar os fios, o que, em criança, eu já amava fazer nos novelos de minha mãe.
A racionalidade excessiva mata, sem dúvida nenhuma, outros excelentes aspectos do ser humano. Mas, não creio que, com minha tendência exagerada para o intelectualismo, tenha perdido as demais faculdades da alma.
Comprovei isto ao longo de dolorosas experiências, onde de nada me valeram análises, raciocínios e conselhos filosóficos.
A vida é maior que tudo e supera qualquer abordagem que se queira dela fazer. O viver não cabe em escolhas, moldes, esquemas. Há apenas duas regras: ou se está vivo, ou, não. O resto, o antes, o depois, são só dúvidas, expectativas, esperanças.
Sempre quis agarrar minha existência pelo freio, como se faz a um cavalo rebelde. Sempre quis me preparar para suas surpresas e inesperados. Ela sempre me arrastou, me desafiou e mostrou sua força.
E minha reflexão nunca progrediu. Volto ao início. E, assim, recomeço, sempre...
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 18h34
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Des-lição
sempre inquieta
espero os aconteceres
mais banais,
com afoiteza
tento abrir os presentes
de cada alvorecer,
sôfrega
ajudo a tarde
a vestir o traje
de lua
para, ansiosa,
adentrar a escuridão
e, arrependida,
amanhecer,
no cansaço vão
de uma espera
daquilo que não virá.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 12h02
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Pensando alto
descobri-me contemplativa
e atemporal_
tenho pensamentos medievos
e iluministas
romantizo ainda, mesmo
admirando Nietzsche
( de vez em quando)_
realisticamente
sei bem das guerras
devastadoras de mundo_
entre a “morte de Deus”
e o inconsciente freudiano,
busco o paraíso dantesco_
tento ser contemporânea
enxergo a globolização,
aprecio os versos sem rima
e a erotização dos poetas_
porém, sou sem tempo
e me conformo
que SOU apenas
o inscrito
em meu DNA.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 12h19
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prá quem gosta de entrelinhas
quando escuto o mundo
ele me pede
o que não tenho
minhas mãos esvaziaram mágoas
meus pés esqueceram caminhos
tenho apenas olfatos muitos
e vistas de olhos que
encurtaram horizontes
o barro da terra entendo
mas só me comunico
com águas domesticadas
não sei conversar com estrelas
sou pobre de emoções de grito
e afogo dores
com vários analgésicos.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 12h12
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Desatenção
de grão em grão,
com meus dedos
debulhei os dias
do calendário promissor
que me ofertaram_
esqueci as sementes
sem rega_
ora só me resta
arrancar ervas daninhas
com os dedos
que permaneceram.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 20h27
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farsante
nego a poesia
que quero prá mim
como mulher que finge
desdenhar
o amante
que a trai
e por dentro suspira
pelo infernal
paraíso
dos beijos dele...
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 12h14
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Contrastando
fico imaginando
que nem sempre necessário
é o peso pesado
que se teima
em carregar_
de qualquer maneira
a vida virá
paulatina
no virar de uma esquina
no abrir de uma porta
e ideologia
só serve
para desviar o olhar
das minúcias
bem minuciosas
que festejam
a leveza de estar vivo.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 11h38
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Conveniências
Íamos receber amigos para o jantar.
Preparei a casa com esmero redobrado. Arranjei as flores num ornato de receptividade.
Recebia-os com carinho, mas não gostava de empregar a palavra amigo.
Não eram amigos, na verdade. A palavra amizade encobre uma série de complicados e sutis interesses, tão bem dissimulados que nós nos envolvemos cegamente neles.
Nomeávamos-nos reciprocamente de amigos, sendo que apenas éramos seres contemporâneos, presos numa rede de circunstâncias que nos haviam surpreendido.
Trazíamos conosco o dever tácito de cultivar o hábito da convivência, numa impressão de estreitar laços e comungar relações.
Mas, nada de descerrar perigos ocultos.
Os temas proibidos, apesar de não explicitados, evitávamos de forma cautelosa.
O diálogo corria o risco de fazer aflorar as intimidades calculadas. Nestes momentos o mal-estar se instalava e havia o rápido retorno às amenidades.
Porém, o importante é que eles nos traziam seu universo e, de qualquer maneira, eu sentia grande carência disto.
Precisava dos outros. Eles eram o meu inferno, mas ao mesmo tempo, minha âncora, meu termômetro interior, meu referencial.
Até certo ponto, gostava desses encontros, onde me divertia distraidamente.
Eram instantes de um ócio organizado, uma espécie de descontração diante dos aspectos essenciais, um não fazer nada, um deixar fluir, um torpor agradável. Eram os truques do caminho.
Banalizavam-se os assuntos para se preservar uma certa assepsia moral.
Necessitávamos das convenções para não ver desmoronar nosso pequeno mundo.
Eu chegava a desejar que alguém se desarmasse e se entregasse mais livremente, porém, o medo falava mais alto.
Eu própria temia esses amigos no recôndito da minha singularidade.
Enfim, quando eles se retiravam, chegava à conclusão de nada haver restado a não ser os copos de bebida sujos e os cinzeiros entulhados.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 12h36
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