Incapacidade

 

Só amasso as palavras nos dentes,

 sinto-lhes os cristais,

dilacerados,

 que não consigo engolir

 e as devolvo ao vento,

 são secas,

sem minha substância,

 sem minha saliva,

 esqueletos de ossos frágeis,

 não lhes doei meu sangue,

 filigranas que são

do vero ouro

 que deve haver nos veios,

 nos ocos,

 onde não ouso escavar.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 14h50 [   ] [ envie esta mensagem ]




Agnus Dei

 

( ao meu filho especial)

 

Vieste tardiamente ao mundo

ao meu mundo triste, turvo e árido,

derramaste nele teu esplendor,

estendeste a mim tuas mãos,

tuas pequenas mãos brancas,

afagaste carinhosamente minha cabeça

e eu te enxerguei vivo, saudável,

como um manso cordeiro

de olhos afáveis e doces

e eras doce assim como o mel

o mel que eu tanto aprecio

a me escorrer pelos lábios

num acalento ao coração,

pequeno cordeiro que me despertou,

salvando-me das alcatéias

dos homens e dos lobos,

criatura minha que então me criaste

que vieste tardiamente

mas sempre vieste,

não te esperava em vão

pelo muito que te esperei

com meus apelos e lamentos

que calaste com tua vinda

pelos meus pecados todos

de que então me redimiste.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 10h42 [   ] [ envie esta mensagem ]




Geografando

 

No fundo de um vale escondido,/ onde um rio corre,/ como corre qualquer rio,/ brotaram as minhas raízes,/ que em outro vale também brotariam. / Os cantos da minha história,/ história restrita e anônima,/ buscaram o seu reflexo/ no grande e finito mundo. / Na imensidão de estrangeiras plagas/ já me encontrei algum dia./ Em águas e praias alheias / me banhei e me rebatizei./ Com o exotismo da raça diversa/ me vesti, me igualei./ Do alto de minha árvore/ contemplei a fauna humana,/ misturei-me ao seu odor/ me incorporei ao rebanho./ Num idioma qualquer/ ouvi antigos dizeres/ que já trazia comigo/ do recanto do meu vale./ Minha história é só o refrão/ das incontáveis histórias/ que se contam em outras línguas/ com o mesmo coração.

 

Dora Vilela

 



 Escrito por Dora Vilela �s 16h07 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

Misto

 

 

de estar sozinha

enxerguei o mundo

míope, lesado,

quase incolor_

de exercitar em sépia

quedei-me no cinza

interior_

e quero, bem quero

a textura cromática

que aqueça

em amarelo-manga

em vermelho-pitanga

em verde-abacate

minha tela

monocórdia

composta

de frutos sem emoção.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 20h35 [   ] [ envie esta mensagem ]




Matutino

 

com o gosto amargo e doce/ do café da manhã/ me inspiro na xícara/ e faço o poema/ o poema é louvor/ do odor, do prazer/ e do intenso calor/ de um instante de luz/ a luz vem da miúda/ diluída, sentida/ sensação de esplendor/ de sentir o viver/ o viver se apega ao tato/ da mão que depõe a xícara/ no lábio queimando, vibrando/ sugando o negror do café/  o café se sacramenta/ em força envolvente/ concentrando espaço/ entre a consciência e o ser/  sou lúcida e viva/ na boca aquecida/ no corpo que sente/  pensando e existindo.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 10h43 [   ] [ envie esta mensagem ]




Freudiano

 

Já é sabido que todas as pessoas falam de pai ou mãe no consultório dos psicanalistas. Talvez porque falar dos pais é se encontrar a si mesmo, ou se perder de vez.

Se falo de meu pai, estarei contando de mim mesma.

No meu caso, ele me representa o início e talvez o meu fim.

Lembro-me dele como uma presença larga, açambarcando e impregnando o ambiente onde permanecia.

Existia com força, marcando a ferro a sua passagem no tempo e no espaço.

Sua figura pequena e atacarrada, que se agigantava para mim, peregrina iniciante, pairava sobre minhas descobertas. Aquela abrangência era exercida em minha vida cotidiana e estendeu-se muito além dos limites da nossa soleira doméstica.

Meu pai foi o primeiro senhor do mundo, na minha insipiente concepção.

Afastava com um gesto o tráfego para eu passar, acalmava as tempestades, bania os terremotos, apaziguava o céu sobre minha cabeça.

Mas, foi um gigante poderoso que me venceu, de maneira insidiosa, com excesso de amor.

Ele amava tão completamente que se esqueceu da vital realidade da solidão dos seres.

Eu não era ele, eis o que meu pai não percebeu, eu não queria ser ele.

Caminhei confiadamente ao seu lado, até a percepção da minha própria existência separada.

Não aceitei em sã consciência minha primeira crise de identidade, não a encarei de frente, subestimei-a.

De uma forma sutil, meu pai deve ter aprovado esta submissão, minha dádiva mortal.

Talvez não o tenha perdoado completamente por isto, donde sobrou-me o sentimento confuso de uma dor despropositada.

Entretanto, aquela presença enorme quedou-se imutável na minha memória. Seu existir maciço tornou-se uma inquietação constante no confronto com minha pusilanimidade.

Meu pai foi o mar imenso que abalou minha auto-descoberta de ser um riacho.

Foi o amor perigoso que esmaga, que sufoca com a desculpa subjacente e enganosa da grandeza dos sentimentos.

Tivesse sido ele menos amante e zeloso e poderia ser condenado. Mas, não o foi, e aí reside a dificuldade do meu doloroso julgamento.

Nasci dele e, quem sabe, morri nele. Ou quem sabe, não. A vida tem remédios milagrosos, às vezes eficientes, para muitos males.

Terá sempre os sortilégios de um divã de psicanalista.



 Escrito por Dora Vilela �s 15h52 [   ] [ envie esta mensagem ]




Algumas palavras

 

 

Hoje, eu não poderia deixar este espaço sem referência a alguém muito especial. Como todos já adivinharam , falo da Ariane, ou Mari, ou Maria Inês, minha mais cara amiga, dentro deste universo virtual e lá fora, onde tenho o privilégio de conviver com ela ( talvez, não tanto como eu gostaria) .

Ela passa por um momento delicado e triste, na vida, devido à saude bem precária de seu pai. Tem vivenciado instantes difíceis, angustiantes e, o que me dói mais constatar, sem esperanças de melhora.

Neste dia, em que ela aniversaria, nossa celebração para Ari deveria ser a formação de uma poderosa corrente de pensamentos intensos e plenos de desejos que a ajudassem a fortalecer a alma e o coração diante dessa provação dolorosa que a vida lhe impõe.

Nada podemos fazer a não ser demonstrar-lhe que não está sozinha, que estamos com ela, orando por ela, enviando-lhe o melhor que temos dentro de nós.

Nossa comemoração não precisa ser ruidosa, mas aconchegante e cheia de afeto. Nossos parabéns devem chegar a ela cercados de desejos e promessas de confiança em nossa amizade.

Junto-me a todos vocês que me lêem.

Parabéns a você, querida amiga, Ari. Meus votos para que você supere esses momentos.

Ofereço-lhe minhas orações e meus préstimos.

Conte comigo e conosco.

Abraço de carinho e afeto( e ouso dizer) de todos nós.



 Escrito por Dora Vilela �s 08h40 [   ] [ envie esta mensagem ]




Rabiscos

 

ando livre

como os versos

na contemporânea poesia,

eu nunca quis

a humanidade sufocada

nos grilhões da métrica,

nem submetida

aos ditadores padrões,

entretanto...

não fui eu

a inaugurar esse caos

mas é dele que

ora precisamos

para recriar o lirismo

que reconheceremos

nitidamente

no seu eterno atual.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 14h11 [   ] [ envie esta mensagem ]




In vino veritas

 

vida minha que bebo

em amargor de gotas

à mesa em que me assento

com meus comensais

toalha manchada de vinho

 sangue escorrido

de minhas veias abertas

hoje a lua mostra a face vermelha

e me atrai ao relento

onde meus alentos ficam gelados

e meus ossos se ressentem

nas folhas mortas repousam meus pés

pisando a terra de meu porvir

entre vermes familiares

e me enterneço com o som

do violino de Vivaldi

onde minha alma lassa

de leve repousa.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 20h51 [   ] [ envie esta mensagem ]




Em um lugar qualquer

 

eram aquelas crianças

louras, azuis, coloridas,

de movimentos suaves,

subindo de leve o carrossel,

 

crianças do presente

que ficaram no presente,

inocentemente atônitas

de claros olhos abertos,

 

a areia de seus castelos,

de seus jogos e folguedos,

manchou-se de sangue vermelho,

mais rubro que o das faces,

 

as que olhavam prá cima

alegres, miravam as bombas

e, ludicamente, aplaudiam,

a estranha comemoração,

 

colhidas pela guerra,

saudadas pelo horror,

cristalizadas em close instantâneo

nem puderam temer os clarões,

 

apenas mudaram de travessura,

deixando de lado o carrossel,

agora, dançam, de mãos dadas,

uma ciranda no céu.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 12h48 [   ] [ envie esta mensagem ]




Pequena certeza

 

 

hoje, sou_

não avisto horizonte

na névoa,

o ontem se perdeu

na bruma,

a semente caiu na terra agora

saberei de seus frutos?

assim como perdi

aqueles que já colhi,

enfim

é aqui e aqui

neste solo,

neste corpo,

nesta hora,

que vivo_

e que sou.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 19h01 [   ] [ envie esta mensagem ]




Naufrágio

 

 

bracejo em meio aos vagalhões

rochedos ferem

até sangrar-me

águas salinas

cegam-me os olhos

secos de lágrimas

meus membros lassos

cedem já ao cansaço

deste oceano de mágoas

onde naufragaram

minhas ilhas

de apoio

onde as praias

se recusam a

receber minha

âncora

e meu porto seguro

virou imitação

das ondas.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 11h06 [   ] [ envie esta mensagem ]




Sensos

 

quase nua

sob a copa

da árvore_

 

mordo o fruto

a saliva livre

a papila aguçada_

 

a língua goza

o corpo vibra

freme o desejo_

 

a vida encorpa_

 

engolindo o prazer

de ver

o pessegueiro

em flor.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 09h35 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

Questiono

 

 

que tempo é esse

em que criança não brinca mais

e  adultos se esforçam

para adquirir a candura infantil?

que tempo é esse

em que a poesia tem medo

de ser conservadora,

onde “eu te amo”

é um clichê banal?

que tempo é esse

em que se cunham

termos “blindagem”

e “condomínios”

sem associá-los à prisão,

que tempo, que tempo é esse?

em que a rima de amor

é sempre dor_  e não, flor?

ou rubor? ou valor? _

que tempo é esse

em que escrevo

nesse teor?

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 18h19 [   ] [ envie esta mensagem ]







 
 
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