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Antíteses
e quando me rasga a pele/ me desata os nós/me expõe nua/leva minha vergonha/lava minha miséria /desfaz meus medos/ cria novos receios/ exala almíscar/ transcorre mil noites/ transcende o chão/ resgata as dores/ acena com outras/ aponta estrelas/ chama as procelas/ enfeita minha alma/ desarranja meu ser/ me faz evolar/ no eclipse lunar/ onde somos dois astros/ tentando se encaixar...
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 12h46
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Meios
possuo a noite
silente, calada
_ meu adereço de gala_
e a lua
enigmática, crua
_ minha testemunha ocular_
e esta angústia
insidiosa, fina
_ meu impulso de seguir_
e este espírito
ousadamente inquieto
_minha condução veloz_
para onde eu,
talvez,
nem quisesse
chegar.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 17h42
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Concerto para violino
morto o meu mundo
o nosso mundo
em mi bemol
vestígios só
de borboletas
pétalas murchas
sol apagado
até a argêntea
luminosidade derretida
da lua
encontro de corpos
ressequidos
hábitos, gemidos,
vácuos no peito,
que é amor?
é sobreviver
e repetir gestos?
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 12h13
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De vez em quando dá
saudade
da tua alegria escandalosa
ne rede de plumas
que nos abraçava
e nos submergia
saudade
da festa ruidosa
do aceso do gozo
do cheiro de húmus
e semente
saudade
do natural simples
rudemente animal
e doce, doce
saudade
da fácil e possível
crença no atemporal.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 11h19
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Poema desnorteado
faminta de expressão
espalho-me sem pejo,
e sai linha de verso
sinuosa, rebelde,
sem rumo certo,
a medo, a modo
cambaio, desconfiado,
verso desfiado,
desconexo,
de linhas frouxas
lã do enovelado
do semi-sonho...
esfomeada de escrita,
esmolo farrapos
que me cubram
as idéias toscas,
sementes, rastejantes,
serpentes, telúricas,
que,entanto,
ardem
e se arvoram em
sêmens, em árvores,
em folhas e frutos.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 11h26
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Insensatez
A escuridão se levanta da cidade e põe-se a desvanecer, com a lâmpada acesa do sol.
Dentro das cortinas cerradas, meu quarto é penumbra ainda.
Abro os olhos que primeiro se fazem ouvidos para os sons matinais.
Escuto a voz da cidade, penetrando-me mais ousada que a luz.
Não vou me levantar. Demonstro minha recusa a ela, virando-me de bruços, abaixando as pálpebras, o travesseiro sobre a cabeça.
Adivinho tons de amarelo lá fora. Preciso amanhecer porque a escuridão se foi? Minha escuridão ainda está sem cor. Não estamos sintonizadas, a manhã e eu.
Quero o real do meu sonho. Nego que há a colorida realidade.
Uma brecada de carros leva o som até mim. Estremeço involuntária.
Ainda hipotônica e automática, me ergo e puxo os cordões das cortinas.
Escancaro as janelas e uma lufada de cidade me invade. E os amarelos, azuis, róseos, ao longe, sobre os prédios, me vencem impunemente.
Vou me organizar para a cidade. Sei que aqueles tons vão caminhar para o escuro novamente. É só esperar.
Escrito por Dora Vilela �s 14h03
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Fotografia
Há uma nota alegre no ar.
Meu noivo chega
e me toma pela mão.
Vou ficar, hoje,
entre parênteses,
entre flores de laranjeira,
entre panos e véus,
vou saborear o meu gosto,
apossar-me do meu hoje
único,
de meus esponsais
com a vida,
conduzida pela mão
do meu noivo,
no meu retrato feliz,
vou exibir meu gozo,
numa pose calculada,
vou reter o momento,
vou prolongar o instantâneo,
que ficará desbotado,
que murchará,
como as flores de laranjeira,
que secará com o tempo,
com o tempo
que ultrapasssa os parênteses
e desmancha a moldura das faces,
mas meu instante, cristalizado,
contará com a testemunha
do meu sorriso de noiva.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 10h18
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Raio-X da depressão
madrugada insone
nada me ensina
e o tédio da noite
apenas se encomprida
na ressaca do dia
na parede da cortina
onde o sol faz gracejos
e oferece o amarelo
que apenas contrasta
com a olheira cinza
e os longos bocejos.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 00h50
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Nosso Cântico ( dos Cânticos)
Nosso tapete no chão. Motivos antigos, medievais, fragmentos, tantos bichos, tantas flores.
Derrubamo-nos nele. Nus.
Arranca-me as samambaias que se enredam em meu ventre e repousa nele. Morde-me com boca de açafrão.
Estendo-lhe, verticalmente ardentes, meus braços enfeitados de pulseiras de peixes translúcidos, vivos.
Percorre minha pele que é terra úmida, onde medram raízes de nardos. Com tua língua escaldante sorve minhas gotículas de suor dos poros. Caminha às cavernas que são de veludo.
Festejo teu prazer com meus dedos de abelhas frenéticas.
Vem, amado, sendeiro de minhas buscas, senhor de meus desvarios. Vem e eu te devorarei com minha boca de serpente. Vem e colhe minhas carícias de fogo inextingüível. Vem e beija-me com o vinho de teus lábios, misturando-se ao licor de minhas romãs.
Inebria-te com o bálsamo que te derramo em tuas espáduas viris, meu guerreiro do amor. Sente a fonte de minhas águas, agarra-me os cabelos que espalham meus odores. Degusta minhas mãos que te sustentam teu membro que me procura. Sou tua gazela que te conduz a esconderijos de prazer.
Sussurra-me ao ouvido teus dizeres mágicos de bruxo. Cola-te ao meu seio que ofega e se entrega aos teus dentes famintos. Conduze-me ao meu centro. Recebo-te gloriosa.
Ébrios, misturemo-nos as essências.
Vem amado, consumemos nossa busca. Aportemos, em nosso tapete, no Jardim das Delícias, que ora regaremos com nosso mel.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 18h03
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Tenho momentos assim....
não tenho nada,
só a certeza desta verdade,
não quero nada_
me tornei exausta,
exaurida e gasta,
de me pensar,
de viva estar,
e saber disto,
uma entediada evidência
a de estar consciente,
sempre, a toda hora,
dentro do tempo,
mesmo não querendo,
nem percebendo,
vontade de descansar,
de ser outra,
de não ser,
vontade de dormir,
e o que é melhor, afinal,
quero o sossego
de um grande baile de Carnaval.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 09h23
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Conforme a música
ocultou-se onde o pássaro ágil
que voava de mim
nos madrigais de meu despertar,
que volátil fazia minha canção
de tempos idos?
escureceram suas asas
e pesado se fez
com o fardo
de minhas penas_
se antes esvoaçava gracioso
hoje mal decola
rasteja em rasante
não gorgeia, não festeja_
meu leve pássaro
aprendeu comigo
a partitura das notas
negras e arrebatadas
dos ardentes arpejos
de minhas loucas tocatas.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 19h06
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