Revivência

 

 

vi os bancos

da pracinha morna

da cidade preguiçosa

que boceja ainda

vi os pássaros

sujando a estátua

que  verticaliza

a lenda do lugar

vi seu braço

no meu ombro

sua boca em meu ouvido

no convite

vi meus passos juvenis

seguindo sua sombra

que hoje se adensa

e abrange

todas as praças

onde nos sentamos

nos bancos

seu braço me sustendo

e sua boca

-minha boca-

me convidando...

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 19h38 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

Rito

 

amarras soltas

vira o leme

e lá se vai

com a  nudez

que é seu traje

de pele

de pérola

de sal

de sol

despeja-se nas águas

nas algas

nas vagas

rasga-se partida

recebe a seiva

de noiva marinha

se afoga em gozo

emprenha-se de mar

_ foi batizada _

já pode casar.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 18h42 [   ] [ envie esta mensagem ]




Impressões ligeiras

 

 

A gente entra na clínica médica, onde tem hora marcada há dias com determinado especialista.

Tempos modernos, homens ocupadíssimos, nossos médicos. Mal dormem uma noite de curtas horas, já lá estão, nos hospitais, a realizarem cirurgias, visitas, reuniões.

Quando nos atendem no consultório, já sabemos, de antemão, o longo tempo que iremos aguardá-los.

Hora marcada é só um jeito especial para dizer que você será atendido naquela tarde, que é composta de várias horas.

Mas, a bem da verdade, hoje em dia, as clínicas onde estão instalados os consultórios oferecem requintes de hotel cinco estrelas. Ar condicionado, televisão com tela de plasma, revistas atualizadas, máquinas de café, água potável, biscoitos, mini-playground para as crianças, cadeiras e sofás adequados.

Mas, o seu coração intranqüilo não quer aproveitar esses confortos. Quer só ouvir palavras da boca do médico, diagnósticos, previsões, avaliações, saber se você pode continuar vivendo em paz...ou, não.

E as pessoas não estão exatamente com cara de lazer. Todas com a mesma síndrome. Dormem, algumas, de sono doentio, lêem, outras, por mecanismo de fuga, bocejam, de tédio, olham fixamente os quadros, esvaziam as feições.

E há as secretárias. Eficientíssimas, circunspectas, sorriso automático, voz estudada. Guardam uma certa associação com as comissárias de bordo, dos aviões, onde a ansiedade da gente se torna muito semelhante à da espera da consulta médica.

Elas atendem telefones, em tom discreto, e  preenchem sua ficha, com perguntas frias sobre seus dados pessoais.Quando você quase os soletra para elas, vem a sensação de que já há algo errado em sua vida: por que você tem essa idade? por que é casado? por que escolheu essa profissão e não outra? É esquisito isso. Secretárias  parecem conter uma oculta e inexplicável censura muda. Ou você é que sente a insegurança diante delas? Afinal, elas representam o personagem principal na sala de espera, que é a antecâmara para uma outra sala, onde o próprio agente de seu destino o aguarda.

Porque o médico representa, então, aquele que será o fator de decisão de sua existência tranqüila, a partir do momento em que você adentra o consultório.

E a secretária parece conivente com a atuação dele. Faz  sua escolta até a mão estendida dele, às vezes, já na porta, às vezes, já amigável, às vezes, não...

E, às vezes, após esperar tanto...a gente tem vontade de voltar à sala de espera...

 Escrito por Dora Vilela �s 13h50 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

Taquicardia

 

 

e meu ritmo segue a linha curta

do poema arisco,

que sou mulher agitada

e tudo me é urgente

o início e o final,

quero a brancura zen

prá fugir do vermelho

minha cor simbólica

do sangue nas veias,

até quero um bolero

para me acalmar,

ou a macia nuvem

que se esgarça

em fiapos no ar,

tragam-me uma certeza

mentirosa que seja

de um horóscopo

que me conceda

infindas noites de amar

bem devagar...

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 16h44 [   ] [ envie esta mensagem ]




Papo furado

 

 

 

Falta tempo... Como escuto essa frase! Como leio essa queixa! Mas, o tempo não é igual para todos? Há que se restringir essa frase: falta tempo para quê? A resposta agora...poderá   revelar o universo do queixoso.

Se alguém não tem tempo para uma conversa “jogada fora” ( para mim nenhuma conversa merece ser jogada fora...se é “conversa” mesmo), não tem tempo para ver um pôr-do-sol, se não encontra tempo para ouvir uma música ( ouve-se com os ouvidos), se não arranja tempo de saber dos amigos, se não “gasta”  tempo em sorrir ao ver uma criança cambaleando, nos primeiros passos, não quero conhecer esse alguém.

De que forma está empregado o tempo desse alguém?  

A vida é dura, “ o pão de cada dia é ganho com suor”, a luta é renhida. Mas, não é pelo pão de cada dia  que se luta. É pela sobra dele, muita sobra... O capitalismo é o dono do tempo. Capital, lucro, re-investimento, mais lucro. Tempo é dinheiro.

Consumismo é uma droga poderosa. Também dona do tempo. Dissimulada, camuflada, sorridente de creme dental, de brilho inox e metal faiscante.

Moda, corpo saudável, haja tempo!

Informações a todo minuto, alta e baixa das ações, é tempo demais a devorar as horas...

Ameaças de bomba. O mal se infiltrando no Oriente e assanhando o Império do Ocidente. Tempo de esperar e torcer para o desenlace, enquanto o sol nasce e se esconde, de um lado e do outro.

Preencher o tempo é escolha. É postura vital.

Vive o organismo humano com uma azeitona por dia. Parece absurdo. Talvez seja. Mas, é uma metáfora de quão pouco demanda o homem para ficar vivo, sem as sobras, nas quais investe tempo.

Cobre-se o corpo com poucos metros de pano. O resto é sobra.

Não é apologia de voto de pobreza. É só um retrato da perda de tempo...

Sexualidade é coisa boa. Sexo desenfreado denuncia outras fomes, com as quais se perde um tempo enorme.

Não quero conhecer alguém que não tenha tempo para perder ...me  beijando mil vezes, a cada dia...

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 17h00 [   ] [ envie esta mensagem ]




Amor gratuito

 

 

Não tenho jeito sinuoso

de bem seduzir

com palavras

com gestos

com modos,

lavo a face

e as mãos,

o sorriso é fácil

_que me veio

de presente_

a voz grave

faz parte

da herança,

o olhar que olha

e abraça

é de nascença,

e, com tudo isso,

desajeitada e tola,

amo logo,

e antes, e de graça.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 18h56 [   ] [ envie esta mensagem ]




Déjà vu

 

Na tarde morrendo,

no ocaso vermelho,

apagas meu lamento,

meu último alento,

no zunir do vento,

no som já indolente

do apito do trem.

 

Tu partes nos trilhos,

tão tranqüilamente,

me partes, me acenas,

em cena já vista,

 

não tornas, eu sei,

me deixas sozinha,

antecipas apenas

o que eu pressentia,

 

intuía, adivinhava,

antes mesmo de chegares,

a grande e irremediável

história da solidão,

 

tu somente me ensinas

na emoção desta tarde

o que eu relutava em saber,

sabendo que já sabia.

 Escrito por Dora Vilela �s 14h06 [   ] [ envie esta mensagem ]




Escrevendo

 

O ato de escrever já se estabeleceu em mim quase como uma segunda natureza.

Ainda penso que escrever é um processo miraculoso que se aproxima de uma terapia de alma e corpo.

Escrever é colocar para fora de si, por meio de símbolos gráficos, um mundo confuso, muitas vezes nebuloso, denso, intrincado. Exteriorizar racionalmente idéias fugidias, vagas, entrelaçadas, parece até algo forçado. É como exorcizar o próprio ser, é como arrancar da terra dura raízes profundas, emaranhadas, que saem aos pedaços, cortadas ao meio, já semi-mortas.

É trazer à tona, de um imenso abismo, algas e monstros, viscosos e escorregadios, agarrados ainda à escuridão e ao ignoto habitat.

É mesmo um parto, extremamente doloroso, em que à luz é dado, às vezes, um feto informe, no qual se distingue apenas uma débil fibrilação cardíaca.

Mas, o ato de escrever é fascinante por isso mesmo. O homem enseja aí seu maior e mais desesperado gesto de comunicação. Acena para o outro, se aproxima, se desarma, se doa. Escrevendo, o homem se entrega voluntariamente, num holocausto da própria individualidade.

Talvez, nos escritos científicos não se constatem estas afirmações, tanto quanto na escrita ficcional.

Mas, enquanto escreve, até mesmo o cientista, debruçando-se na sua tese, imprime nela sua marca, convicto da mais objetiva isenção e imparcialidade.

Eu gosto de escrever, mesmo sabendo de tantos logros que a mente nos prega, nos momentos mais inesperados.

Desejo vencer a empreitada de fazer escorrer o leite dos veios das idéias, fazer verter como sangue as figuras da imaginação, manchando um branco de tela imaculada.

Quero ultrapassar esta barreira que me sapara dos outros, desnudar-me, transmutar-me em alma corpórea, feita de letras e sinais, passando para dentro de um outro corpo.

Nem me passa pela cabeça que não me desejarão ou me repudiarão. O que me importa é sair de mim, me expulsar de dentro, para um lugar onde eu possa me contemplar com clareza, pelos sentidos e inteligência de outrem.

Escrever é, para mim, como comer, beber, respirar e sobreviver.

 Escrito por Dora Vilela �s 08h57 [   ] [ envie esta mensagem ]




(Vontade de escrever simples)

Reminiscências

 

Houve uma amiga, sim.

Minha amiga.

Sem encontros marcados, sem compromissos formais, nos aproximamos ternamente.

O afeto foi a marca única da nossa seletiva preferência.

Minha amiga não se encaixava nos diálogos mundanos. Nossa amizade foi baseada muito mais nos silêncios respeitosos e nas distâncias físicas.

O espaço não foi nunca empecilho para os sentimentos que guardávamos de nossas trocas mútuas.

Valorizávamos nosso apreço, longe da turbulência e do tropel do mundo, comunicando-nos, às vezes, por longas cartas, sem necessidade de máscaras ou subterfúgios.

Estranhamente, onde quer que ela estivesse, eu sentia sua presença forte nos momentos penosos que já atravessei.

Era, como eu, avessa a uma afetividade piegas e sufocante. Vivíamos vidas tão distintas e nos ligávamos mesmo assim por uma confluência de gostos, afinidades e predileções.

Minha amiga e eu não tínhamos acordos, nem combinações, porém, sabíamos, num repente, avaliar as repercussões de um fato em cada uma de nós.

Quantas vezes eu não necessitava lhe falar para entender se sofria ou se alegrava, ao receber notícias minhas.

Queríamo-nos fraternalmente, compreendíamo-nos, mas nossos caminhos quase nunca se cruzavam, nos diferentes apelos que tomavam nossas direções.

Corríamos, como linhas paralelas, tocando-nos em alguns pontos de vital energia e seguindo em frente.

E eu era feliz, porque ela existia, me amava e me fazia acreditar na comunicabilidade humana.

 Escrito por Dora Vilela �s 08h12 [   ] [ envie esta mensagem ]




Novidade

 

Brota-me o sorriso espontâneo

ante a ternura dessas falas

que de mansas, escorregadias

escondem garras e unhas

e sentidos,

são as vozes do meu tempo_

sombrio alvorecer de século_

onde a palavra perdeu a honra

mas adquiriu outra força

que é de mel e persuasão,

meu pai não precisava assinar

sua boca falava o sensato

e o certo,

hoje, as bocas falam

intensamente

mas é preciso assinar

e reconhecer a firma

a fama e a procedência...



 Escrito por Dora Vilela �s 17h39 [   ] [ envie esta mensagem ]




 Poema em prosa

Não sei sonhar os meus sonhos,

prefiro os alheios, tão leves,

tão sonhos quanto ilusões.

Meus devaneios são retos,

são traçados, são premonições,

não sobem feito fumaça,

nem se atrelam às estrelas,

obedecem à minha consciência,

grudam-se na minha chã razão,

não se evadem, não me fogem,

ficam mudos diante de mim,

envergonham-se timidamente

por se encontrarem em mim.

Ah! Não se afrouxam minhas rédeas,

não sonham meus sonhos por mim,

não se soltam dos meus medos

nem do meu íntimo ruim.

Se eu pudesse, se eu soubesse,

meus sonhos todos sonhar

viveria, quem sabe, enfim,

minha vida, plena, assim!

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 13h12 [   ] [ envie esta mensagem ]




Depois de ler um artigo de Lia Luft...escrevi:

 

 

Réveillon

 

Festança de arromba,

convivas brindando à lua

do ano novo, já velho.

 

O calendário repleto das mesmas idéias

repetidas indefinidamente

neste mundo pobre, deste ano que entra.

 

Bêbados erguem as taças

com braços trêmulos

e frases gastas nas bocas

a brindar nem sabem a quê.

 

Augúrios de momento, falazes,

amarguras bem enterradas

nas franjas dos trajes de gala.

 

Ano foi, ano vem,

a desfiar, a desfibrar

esperanças soltas

desejos sem conta.

 

Dia seguinte, nas sobras,

nos restos, há o cansaço real

na ressaca da dor noturna

à espera da dor anual.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 12h22 [   ] [ envie esta mensagem ]







 
 
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