Flash

 

o moleque corre na sarjeta

chutando a enxurrada,

na face um prazer ignoto,

os lábios entreabertos

num sorriso interior,

o gesto das pernas

o corpinho inteiro lhe estremece,

chuta a água como quem

realiza uma obrigação,

mas o gozo esconde a tarefa,

e na euforia do cansaço

devolve ao espaço

a energia acumulada,

não tem olhos prá quem passa,

envolto na brincadeira,

vai se embebendo dela...

vai se afogando de vida...

vai se fazendo água...

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 18h35 [   ] [ envie esta mensagem ]




Mãe-Terra

 

 

Ando pisando em falso

nas sendas que escolho

com minhas sandálias,

 que eram de voar,

e que agora tropeçam

em pedras soltas

perdendo as tiras,

largando fivelas, enfeites,

ando melhor, descalça,

calcando o chão duro

com indígenas plantas dos pés

de sentidos desenvolvidos,

aprendendo a oração murmurada

das nascentes de todas as coisas

vindas do centro da terra,

da voz das minas e do eco das sombras

das convulsões das entranhas

onde se perde e se encontra

o segredo da vida

que nasce barro e vira poeira.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 17h32 [   ] [ envie esta mensagem ]




Pausa

 

anoitece

e as coisas desaparecem

na sua dimensão,

adivinho-as na memória

do dia que foi,

na árvore folhosa

que imagino da minha janela,

no odor do jasmim

e da dama-da-noite,

no som longínquo

da criança que chora,

no soluço surdo

das bocas desejosas,

no ladrar dos cães vadios,

na conversa dos sapos,

e minha alma se expande, luminosa,

desviando louvores

para a intermitência das coisas

vivas e  vividas,

agora obscurecidas.

 

Dora Vilela

 



 Escrito por Dora Vilela �s 22h41 [   ] [ envie esta mensagem ]




Curtos e leves, porque na vida há que se fazer pausas para as levezas...

 

 

em noite de estrelas

se forjam sonhos precipitados,

fogos-fátuos

que se apagam na manhã.

 

 

 

o vento que brinca com meus cabelos

tem as mãos do meu amor,

domando, risonho,

a urgência dos meus apelos.

 

 

 

no meu frio de outono

me desvio pressurosa

do teu olhar que me despe

prá ganhar espertamente

a cálida cobertura

do teu braço irreverente.

 

Dora Vilela

 



 Escrito por Dora Vilela �s 13h10 [   ] [ envie esta mensagem ]




Púbere

 

A menina pálida

estremece ao contemplar

na alvura do vestido

a rosa vermelha

que lhe nasceu, de repente,

ignorando, inocente,

que esta é sua semente.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 19h59 [   ] [ envie esta mensagem ]




Humanismo

 

a miséria da criatura humana me pertence

e me açoita em noites de intempéries,

tremo por mim, e, por mim, sei dela,

dentro da igualitária condição,

pelo que oro e velo

faço vigília e me enluto,

já conheço o vale das sombras

o pranto convulsivo

a dor incontrolável

o dilacerar dos desejos,

e no sopro do vento

lanço meus sonhos

 arranjo utopias

envio quimeras,

que não dissipam

o absurdo do ser,

mas divido comigo

a penúria de todos

que é a minha também.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 13h34 [   ] [ envie esta mensagem ]




Rebeldia

 

não desejo o que me desejas

pois nem eu sei o meu gosto,

quero alcançar a lua

mas seu brilho cobra imposto,

sigo o traçado do inseto

mas este é meu rumo incerto,

misturo altos e rasos

me enjôo dos próprios planos,

não me deseje nada

deixe-me à vontade

em viver camaleoa

camuflada de vivente,

ao léu, no vento, à toa.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 10h12 [   ] [ envie esta mensagem ]




   

Hai-kais para Paulo Leminsk (onde quer que ele esteja...)

 

 

O tempo que passa

engole o que

me consome.

 

 

Em cada aurora nasce sempre

o primeiro dia

de amar de novo.

 

Livre não é quem voa

é quem arranca as asas

e as doa.

 

Dora Vilela

 



 Escrito por Dora Vilela �s 19h42 [   ] [ envie esta mensagem ]




Para minha neta recém-nascida

(nasceu ontem às 22,30!!!!!

E havia uma enorme lua cheia, no meio do céu!!!

 

Nem pensei que ainda pudesse

então enlaçar a alegria

viçosa e pujante

entre meus braços claudicantes.

 

E ela me olhou

me escolheu

e me celebrou.

 

Criança que varou a noite

e saltou para a luz,

meu sangue multiplicado,

minha estirpe humana e frágil,

meu coração dilatado.

 

Acolho-a com efusão

na partilha do mistério

da vida que me renasce

nesta fantástica recriação!

 

Dora Vilela 

 

 

 

 

 



 Escrito por Dora Vilela �s 13h32 [   ] [ envie esta mensagem ]




Para a Adélia

 

Tempo recorrente

 

 

alimento minhas horas

com as sobras do ontem,

estou presa lá

onde os crepúsculos morreram

e os ventos se retiraram,

agora decifro o momento

estendendo as mãos

prá arrancar os frutos

da dor que restou,

apurando os ouvidos

pra desvelar os suspiros

que, em vão, tento amainar,

nesse desnudamento

fico no meio caminho

entre a carência

daquilo que passou

e a vontade de desfazer

o tudo que se transformou

naquilo que hoje sou.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 08h53 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

 

Para a Loba...

 

Refinamento

 

saudade do simples fogo

que hoje não me aquece

e cheia de mimo

exijo requintes

de lareira e vinho.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 09h32 [   ] [ envie esta mensagem ]




Peito aberto

 

Rejeito tanto a pieguice de minhas lembranças que acabo permanecendo na reflexão pensada e enfadonha. Isso leva embora o encanto do que deve ser apenas relembrado com o coração.

 Lembranças são sentimentos, são tatuagens do tempo na pele da mente, não são peneiradas pela razão. Lembranças ficam retidas numa área emocional. Não devem ser trabalhadas e arrancadas do seu primitivismo.

 Racionalizar lembranças é matá-las, estiolá-las, sem piedade.

E lembranças estão sempre entrelaçadas, necessitando que lhes puxe o fio principal.

A voz grave e doce de minha mãe não se resume na voz dela. É a cena toda, a situação inteira, eu, criança, nós, irmãs, crianças, um círculo só de cheiro de bala de goma, de empurra-empurra, gritinhos, risos finos, tolices gostosas, choros passageiros.

Minha mãe falando nosso nome no diminutivo, às vezes, traz a tarde de domingo pausada,  meu pai, na sesta, galinhas ciscando o chão, o relógio da sala recortando as horas, a penumbra das cortinas do quarto, onde ela nos obrigava a dormir para crescer.

Eu era agitada, não tinha sono de tarde, só olhava a claridade crescer e diminuir, na fresta da janela, no movimento da aragem leve.

Minhas irmãs ressonavam e eu tinha inveja. Onde estariam? Brincavam, certamente, sem mim. Não agüentava  o sentimento de exclusão que sentia, nesses momentos.

Mas, em compensação, meu sono de manhãzinha era pesado. E me chega à lembrança o curioso e excessivo carinho materno, novamente. Ela me chamava baixinho, para a escola matinal, e, ao invés de me sacudir, ela aconchegava mais as cobertas e saía a preparar nosso café. Eu afundava mais no sono, e, na volta, ela quase chorava, por não me ver em pé ainda. Todo dia, a mesmíssima cena. Eu, cambaleante, sendo levada a lavar o rosto com água fria. E, sempre empurrada, até os últimos minutos de saída de casa.

O tempo era longo e só tinha a divisão de noite e dia. O mundo era grande e pequeno. Havia sol e chuva. Nuances de clima eram frio e calor.

A visão mais clara são os muros cercando o ninho que meus pais ergueram para a ninhada de quatro meninas. Minha casa de infância, centro operacional, de onde eu realizava movimentos de vaivém , recolhendo fragmentos de vida de fora e destrinchando-os, entre as paredes.

Não sei se eu era de índole pacífica, ou se eram as circunstâncias, mas só passeio por ternuras nesse chão pueril.

Minha única inquietude se concentrava em ser a mais velha e ouvir o refrão “dê exemplos para suas irmãs”. Essa frase supunha tantas normas e leis que me atrapalhavam a vontade de brincar livre. Por fim, eu acabava ignorando o recado, apesar da pontinha de responsabilidade nascente já em mim, de forma precoce.

Talvez não lhes tenha dado bons “exemplos”. Não sei. Não cabem nas minhas lembranças.

Hoje, somos quatro mulheres, desiguais, em tantos aspectos, mas exatamente idênticas em mútuo afeto.

 

Dora Vilela

 



 Escrito por Dora Vilela �s 18h21 [   ] [ envie esta mensagem ]




Descoloração

 

 

 

No manuseio do tempo

anoitecem as coisas

que me eram louçãs

 

 desbotam as cores

de meus vestidos

de primavera

 

tonalizam-se em pastéis

as preferências das retinas

 

mas, meus lençóis conservam

 flores encarnadas

com pássaros encantados

em sedosos tecidos

enfeixando segredos

eternamente coloridos.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 09h35 [   ] [ envie esta mensagem ]




Sem rota

 

sendo de natureza ambígua

envio naus diversas

para descobrimentos próprios,

meu olhar capitão

tem luneta desfocada

distingue mal ilhas e náufragos,

mistura gaivotas e abutres,

embaralha areias e rijos rochedos,

vê coqueiros e monstros marinhos,

e nunca sei dirigir

meu comando,

se aporto ou

se sigo buscando...

 

Dora Vilela

 



 Escrito por Dora Vilela �s 10h23 [   ] [ envie esta mensagem ]




Gaiola dourada

 

Vestia-se com gestos um tanto bruscos, devido ao olhar dele, que a contemplava, com muda satisfação, sentado numa poltrona, em frente ao closet.

Jantares, festas, encontros sociais, eventos financeiros, a bela esposa do executivo bem sucedido estava presente. De braços dados, sorrisos largos, ele e ela.

Hoje, uma homenagem a um  gerente estrangeiro, metódico, exigente e cioso dos sagrados laços do matrimônio e importantíssimo para os negócios da firma.

Nauseada pelo perfume importado, pelo glamour cintilante do local, se deixaria conduzir pelas outras senhoras elegantes, que cumulariam de elogios seus encantos dentro do vestido vaporoso de grife da moda.

O pensamento longe. Academia, massagem, cabeleireiro, manicure, o quê mesmo tinha marcado para as seis horas da manhã? O tempo era curto e não era seu. Uma boneca linda e oca, pertencente a um menino rico que a cobria de riquezas e luxo. Nada de lágrimas de mal-agradecida.

Choro estraga os olhos e enruga a pele.

Havia os livros insípidos nos quais  ainda devia passar a vista, em busca de pistas para as respostas óbvias das socialites intelectuais de salão.

E, pelo menos, dar um beijo rápido no rostinho suave da filha, antes que a babá a levasse a passear.

Saudade de um chinelo macio e velho, saudade de ir cedo para a cama, ver televisão, ler um livro escolhido por ela, comer pipocas, jogando-as de longe, na boca. Saudade da mãe, falecida. Pelo menos, ouvira seu suspiro derradeiro repassado de alívio, já que deixara protegida a filha. Protegida por um homem poderoso.

Vestiu-se e esperou a aprovação do marido. Entregou-lhe o colar de diamantes e virou-se para que ele colocasse o fecho corretamente. Nenhum carinho. Profissionalismo.  Depois de passar no teste de qualidade, pediu-lhe um minuto, enquanto ele, aprumadíssimo, descia já as escadas para o térreo.

Ela abriu as janelas e contemplou o imenso jardim, onde as flores pareciam eretas e perfiladas, e de um tom obedientemente similar.

Enxergou os portões ao longe, os muros, a guarita, os guardas . Os cães estavam calados.Mas, no silêncio, ecoou-lhe, nos ouvidos, o estridente som de um alarme que ela sabia existirem nas prisões.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 19h14 [   ] [ envie esta mensagem ]




 Dupla face

 

 

 

esvaziei dias e dias

a mourejar nas andanças

descalça, ferindo os pés,

a cinza na cabeça,

o cajado dos aleijados,

e a  mera lembrança

de uma bússola tonta_

não queria a pedra filosofal

ou o pote dourado

atrás do arco-íris,

nem mesmo o santo graal_

abri a caixa de Pandora

e preferi a face oculta

da frágil criatura

que, entre anjo e demônio,

em vôos e quedas,

ensaia dentro de mim,

errando e perdoando,

mil vezes caída,

mais vezes, sucumbida,

mas, pronta e presente,

e anelante,

para uma nova subida.

 

Dora Vilela

 

 

 

 



 Escrito por Dora Vilela �s 13h48 [   ] [ envie esta mensagem ]




Para a Márcia Maia

 

 

 

Préstimos

 

Há palavras que enternecem

fazendo tremer os lábios

na iminência do choro.

Há palavras com alma

que desatam a emoção

presa e afogada.

Há palavras indicadoras

que antecipam o acontecido

numa  certeira visão.

Há palavras tão plásticas

que o próprio sonho

arquitetam.

Há palavras sonoras

que vibram e oscilam

em meneios de danças.

Há palavras desesperadas

para servir à vida

e estremecê-la.

Há palavras, enfim,

em fuga dos dicionários,

correndo ao nosso encontro,

emprestando-nos as formas

para aquilo que silenciamos.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 18h14 [   ] [ envie esta mensagem ]




Vingança em enigma

 

entretanto, te entrego

nos braços

meu ser em pedaços,

tens ainda os

destroços dos

largos abraços

de aço

que sempre te traçaram

as tramas das peças

do teu teatro.

 

Dora Vilela

 



 Escrito por Dora Vilela �s 20h14 [   ] [ envie esta mensagem ]







 
 
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