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Veredas
O azul límpido coroava a totalidade do céu, que seu olhar castanho abrangia.
Dava cansaço a luminiscência. Nenhuma fresta, nenhuma mancha, um céu sem fundo.
Dia propício para qualquer eventualidade, mas isso tanto fazia para ela.
A mão, afastando os cabelos da fronte, espantava os fantasmas persistentes.
Ele não viera. Ponto. Fato consumado.
O bar já se enchia de alacridade. O clima manso de antes fora quebrado por exclamações de bocas diferentes da dela, que se quedava seca e ardente.
Empurrou o copo de cerveja. Não agüentava mais o gosto amargo que se tornara agora um líquido a envenená-la.
Tinha certeza, tanta certeza de que ele viria.
De moto, com o capacete a aumentar-lhe o volume da cabeça, que, livre da couraça, era tão proporcional e sedutora. Uma cabeça bonita, emoldurada por cabelos pretos e brilhantes. Essa cabeça chamara sua atenção, naquele mesmo lugar, onde ele permanecera sentado, ainda ontem, ainda sorrindo e piscando os olhos contra o sol.
Ele a vira, acenara-lhe com o copo de cerveja, à maneira de brinde, e ela continuara a brincadeira, erguendo o seu.
Daí a minutos, desenrolou-se um tapete de aconchego. Sentaram-se à mesma mesa, pediram novos copos, se indagaram, se espiaram, se contaram.
Tempo corrido, o sábado solidário, o bar sempre lotado, os sons das conversas cercando os dois, como paredes.
Ficaram próximos, acessíveis, tocaram-se as mãos, afundaram-se nos laços recentes e antigos da atração dos sexos. Levemente surpresa ela elegeu-o o único, até aquele dia. Coincidências, afinidades, complementos um do outro. Química ou física, ou magia. Ou, nada.
Beberam sem perceber, e ele, em meio aos vapores do álcool, riu-se, ao contar que esperava outra, que enfim, não chegara. Talvez tivesse coisa mais importante a fazer, resumiu, meio irônico.
Marcaram o re-encontro. Mesma hora, mesmo lugar.
O sol já queria repousar, atrás da serra. Anoiteceu. Noite madura. E ele não viera. Acontecera algo. Ou, nada.
Ele tivera coisa mais importante a fazer.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 15h29
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Busca
minha face obscura
me propõe acordos,
afagos, doçuras,
não creio, não posso,
há promessas de dor antecipadas,
livro-me de mim,
abraçando o fugaz,
mas quero o atemporal
a custo alto e sofrido,
mesmo que me negue,
mesmo que me mate.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 12h09
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Em tempo
Saiu, faceira, vestido decotado de sempre, pouco gosto que ainda mantinha, com esse calor que era mais em cima do corpo, do pescoço prá cima. Coisas da idade que quando vai comendo os anos é um tal de surgir novidades na pessoa. Além do calor, era uma canseira por qualquer vassourada nos cômodos, uma rega nas flores, uma corridinha ao mercado. Se fosse de pensamento nervoso já ia ter com médicos e exames e chateações. Mas, adivinhava o diagnóstico. Afinal quem convive mais com o próprio coração batendo no peito é a dona dele. E o seu estava agindo fora de compasso há algum tempo. Idade, sim. Muitos quilômetros de estrada percorrida. A pessoa tem que se cansar.
Marido na espera, foi ver se achava umas frutas na feira, que homem em casa, por causa de feriado, é aumento de tudo, desde alimento até reclamação. Nada preenche a exigência de homem sem o que fazer. Tem fome, tem desejos de comer o que não come no diário do serviço. Agora, era vontade de tomar suco de fruta. E, lá vai ela, dorso endireitado, rebolando de leve, no viço um pouco embaçado, pois sim, que nem é velha de todo prá andar capengando e arrastando calçado.
Aperta as frutas com as pontas dos dedos. Já vai pechinchando antes de comprar. Essa manga é a preferida do filho mais velho, casado então, longe, uma pontinha de saudade chegando. O mais novo, que trabalha mais longe ainda, solitário lá, entre gente estranha. Sozinhos, ela e o companheiro, que agora se põe a fazer dengos e a querer mais de seu tempo que vagou sem os filhos por perto.
Revira as laranjas, sente-lhes a polpa a examinar se têm suco farto, a casca fina, as adequadas para espremer suco. E os abacaxis, no ponto certo.
A sacola pesa na volta. Já não remexe os quadris. Muito calor. E, o esquisito é o suor frio, que poreja dos braços e das mãos. A visão embaralha um pouco. Deixou os óculos, em cima da mesa da cozinha. É isso. Arqueja um pouco, o ar parece faltar. Respira fundo, lembra a distância que falta. Mais dois quarteirões e a bolsa lhe solta do braço, o corpo não se sustenta. As pernas oscilam. Leva a mão ao peito. As frutas rolam pela sarjeta, entre os olhares dos passantes que vêem uma senhora caída ao chão, com o decote do vestido descobrindo o início dos seios, pálida, de olhos ainda abertos e sem expressão.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 20h22
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Breve
ele chega e traz o mundo na poeira dos sapatos
se achega nela e roça um beijo na face,
e já é outro e já é ninho,
ela finge distração atenta no livro
que não é substituto dele
mas aproximação,
ela é colo sempre, mesmo áspero
de espera,
ele desenrola a aventura
e a entrega nas mãos dela
que a dobra e guarda no bolso,
silêncio leve
de doméstica aquiescência,
mesa, talheres, aroma
e as perguntas e respostas
se dissolvem no ar.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 09h58
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Fado
João ergueu-se da cama, madrugadinha, lentamente, sem esbarrar no sono da mulher.
Espiou o cômodo da filharada ressonante nos vapores dos sonhos.
Suspirou, de hábito arraigado, no lamento à falta de sorte. Só mulheres tivera e aquele único filho varão. Justamente ele, que carecia de braços de macho, para a lida de pescador.
E, como se não bastasse, o infortúnio era acrescido da característica raquítica e franzina do pequeno.
Como arrancá-lo de sob as cobertas, levando-o a enfrentar o frio, o rigor das ondas encapeladas, a rigidez do remo naquelas mãozinhas, sem se sentir pai tirano e desalmado?
Passou o café pensando e repensando na maldade do destino. Por fim, entrou no quarto, contemplou o menino em meio às irmãs, e, quase com raiva, sacudiu-o, acordando-o de vez.
Zinho, estremunhado, acompanhou o pai. De índole dócil, nem se queixava. Mas também não correspondia aos desejos de João, que ansiava por aquele companheiro, nas andanças pelo mar. Apanhava resfriados constantes, que o deixavam prostrado. Era desajeitado e sem destreza, sobretudo no barco, que o balanço marítimo jogava de cá para lá.
O pai não desanimava, querendo forjar-lhe o corpo e quebrantar-lhe o ânimo na rudeza da lida.
Em vão se passaram os anos. O pequeno não se moldava nunca àquela peleja. Tornou-se um rapaz franzino, nem de longe se igualando à compleição musculosa do pai. As irmãs puseram corpo, mais robustas talvez que aquele filho, que ele sonhava herdeiro na profissão.
Num dia de oceano raivoso, saíram para a pescaria. Ainda que calejado nas surpresas do mar, em dado momento, João se descuidou e perdeu o equilíbrio. Em desespero, o jovem se atirou nas ondas revoltas que ameaçavam tragá-lo. Com esforço hercúleo, conseguiu arrastá-lo e empurrá-lo para dentro. Mas, o cansaço o venceu. Foi levado para o fundo das águas.
E João voltou à terra firme sem o filho.
Em meio à dor e à loucura, ficou variando por muito tempo, sentado na praia, o olhar fixo nas ondas,
E o mar devolveu-lhe o filho, que ele recolheu nos braços, como a uma criança. Depositou-o com cuidado, na cama, onde ele poderia ficar entre as cobertas, e de onde não precisaria mais ser despertado para acompanhá-lo no barco.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 11h55
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Sons extintos
Os tempos mudam, as ações humanas se diversificam em relação ao progresso, os costumes se adaptam às demandas da época e as pessoas interagem de acordo com as mudanças impostas.
A linguagem acompanha esse quadro de mutação. E em meio a toda essas alterações, os sons também se modificam.
Esse preâmbulo enseja apenas o desejo de se discorrer sobre reminiscências de sonoridades perdidas, devido a usos e costumes desaparecidos, sobretudo nas cidades interioranas, que hoje vão tomando ares progressistas.
Quem se lembra, ou quem já ouviu falar dos antigos pregoeiros das ruas, que desfilavam suas mercadorias, ao som dos gritos ou “pregões”, subindo e descendo os vãos das cidades, muitas vezes a empurrar carrinhos ou engenhocas precárias e pesadas? Todos os ouvidos já os reconheciam de longe, pelo mesmo estribilho que criavam para cada tipo de produto apregoado. Eram bananas nanicas, cocadas, beijus, doces de abóbora, pamonhas, uma mistura de sabores e aromas discrepantes penetrando o ar das beiradas de portas, onde eles se avizinhavam e descobriam os quitutes ante o olhar experiente das mães de famílias.
Havia assobios agudos seguindo os gritos, quando o pregoeiro anunciava consertos: amolavam-se facas, tesouras, e tantos objetos cortantes, obsoletos, talvez, hoje em dia.
Eram sons familiares, honestos, pontuais. Se a mercadoria era elogiada como sendo de qualidade, nada a temer. Era verdade, saindo da boca do vendedor. Não existia a malícia da propaganda enganosa, mesmo porque a comprovação era feita no momento da transação.
Não há mais esses sons percorrendo as cidades. Não há mais carregadores de cestas imensas cheias de coisas tenras, bem feitas, carinhosamente manuseadas.
Nem há mais crianças à espera dos carrinhos de algodão doce e quebra-queixo, num prazer natural de adoçar a boca e a infância.
São sons que viraram ecos. E ficaram deslocados no tempo. Se alguém gritar sua mercadoria nas ruas, atualmente, quem sabe vai ser identificado como doido ou extravagante.
Emudeceram esses sons , cedendo lugar a outros. Tantos. De brecadas e buzinas frenéticas a gritos de medo ou susto, nas ruas das cidadezinhas que hoje evoluíram e conhecem a vida das capitais, onde os sons mais comuns são esses, no meio das ruas.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 17h11
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Distribuição
me derramo
prá fora de mim
feito calda de doce
explodindo na quentura
do fogão,
não me caibo
em meu tacho
de fervura,
na brasa
me esparramo
em espessas doçuras
que podem queimar
mas se condensam
cá fora
como meus caramelos
disfarçados de versos.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 08h22
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Poente
tão pouco debaixo do sol,
meus mortos me espiando,
um céu num amplo convite,
e a fadiga, o absurdo e o tédio,
tudo se transformando
na mistificação do novo,
nenhuma porta se abrindo,
nada se esperançando,
a lenta estrada se estreita,
os pés nos cascalhos tropeçam
e oscilam os olhos em busca de atalhos,
o gosto se dispersa
no que antes era regalo,
o verão se torna frio
nas noites que se prolongam,
o que era pequenino
se dilata em desmesura,
tanto acúmulo de passado
cabendo num só instante,
a claridade se consome
e se torna ponto informe,
as mãos, por instinto, se agarram
em nesgas de possibilidades,
o ser é o mesmo ser,
mas a dor já é bem outra,
tudo tem cheiro de adeus
e a cor difusa do ocaso.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 08h25
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Queridos amigos:
Peço-lhes desculpas pela minha ausência. Inúmeros acontecimentos fortuitos me tiraram do convívio de vocês. Fiquei, inclusive, totalmente fora de contato, pelo computador, mesmo para troca de e-mails. Tomei conhecimento das visitas ao meu blog, há pouco. Não sei se será possível conversar com cada um, como gosto de fazer, por isso, quero deixar a todos aqueles que aqui estiveram meus profundos agradecimentos. A cada um, meu abraço afetuoso.
Senti falta de todos vocês.
Voltarei a postar e a fazer meus passeios gratificantes pelos seus recantos, o mais breve possível.
Os beijos, de sempre.
Dora Vilela.
Escrito por Dora Vilela �s 20h04
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Verídico
Tenho uma amiga. Antiga, querida. Sempre a visito Raramente ela vem me ver. Os momentos que passo com ela, em sua casa, são incríveis parênteses que me permito na minha caminhada. Falamos de absolutamente tudo, desde a bagunça de seu escritório, imenso, de pé direito alto, com enormes estantes recheadas de livros, até da última viagem dela para a Europa. Sim porque ela já viajou muito. Sozinha, viúva, mora com um filho, separado da mulher. Num sobrado enorme, ela vive, além do filho, na companhia de uma moça que faz todo o serviço braçal, necessário para ela. Mas, ela faz questão de fazer a própria comida, segundo ela, muito especial. Nunca a provei. Só uns lanches que, às vezes, tomamos, sentadas nos sofás do escritório. A mesa principal desse cômodo é tão plena de objetos que me distraio, tentando colocar uma ordem qualquer: há folhas de jornais dobradas, livros empilhados, porta-lápis, lentes de aumento, cartas lidas, pequenos desenhos, uma parafernália. E aí a serviçal não tem ordem de tirar o pó.
Ela fala muito, minha amiga. Também, além do português, ela sabe, conhece, a fundo, outras línguas, vivas e mortas. Desde o grego antigo, o latim, até o inglês, o alemão,o francês e sei lá quantas mais. E quase todos livros, ela os lê, entre poesia e prosa, no idioma original. Falamos sobre literatura, mas eu fico bem tímida diante da sabedoria dela.
No começo do ano, fiquei estarrecida. Chegou-me a notícia de que o filho dela falecera. Eu sabia que ele era portador de uma grave hepatite. Mas a doença progrediu tão rapidamente, que não tive nem notícias dos últimos dias dele, no hospital. E não tive coragem de assistir ao funeral. Não consegui ver minha amiga. Deixei passar um tempo, para eu conseguir encará-la, sem desmoronar junto com ela.
Essa semana fui vê-la. Foi uma tristeza inenarrável nosso encontro. Fiquei com medo de que ela passasse muito mal, ao reviver a lembrança dele, justamente pela minha presença. Superamos. Ela conseguiu conversar, como antes. Eu a fortaleço. Ela me diz isso. Eu a rejuvenesço. Eu sei. De acordo com ela, eu lhe trago de volta uma fase encantada da vida dela. Ela foi minha primeira professora de francês. Ela tem noventa e três anos, minha amiga.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 19h57
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