Assim na terra como no ar

 

 

meu imprescindível poema de amor

desaloja as formalidades

coloca-se pé no chão

e se despoja das vestes nupciais,

meu poema de amor

só entende o calor do corpo

o aroma da terra fecunda

o diálogo de música alada,

meu poema de amor

amadurece simplesmente,

não carece de enfeite

é confeitado do efeito

da pele contra a pele

atritando em deleite.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 16h56 [   ] [ envie esta mensagem ]




“O sono é o prelúdio da morte.”

                             

                                          Shakespeare

 

 

o dia atravessou em mim,

tive febre e delirei

e tomei medicamento

de fazer sonolência

e eu não era mais eu,

da ponta da manhã dormi

e assim alcancei o fim

do outro lado,

na madrugadinha acordei

e pensei com espanto

nesse dia em que eu não existi.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 17h53 [   ] [ envie esta mensagem ]




Queridos Amigos:

 

Meu computador esteve em manutenção a semana inteira. Segundo o técnico, o problema foi devido aos vírus. Ele teve que configurar tudo de novo.

Fiquei separada de vocês. E agora, que meu pc está de volta, são e salvo, deparei-me com os comentários de vocês. Li-os, todos, com carinho, e espero respondê-los, em breve.

Agradeço-lhes a atenção e o zelo.

Está tudo bem, agora.

(E nem quero pensar em quantas visitas estou devendo!!!!!!!!!! rs)

Um enorme abraço para todos.

 

Dora Vilela

 Escrito por Dora Vilela �s 15h12 [   ] [ envie esta mensagem ]




Estilo

 

 

escrevo entre as pausas

do vivo pensamento

que me tolhe a mão,

escrevo antes e depois

da mente me estrangular,

escrevo no rastilho

que a razão acende,

escrevo em retalhos

que, apressada, os recolhe

a emoção,

antes que o equilíbrio

retorne

e me arranque

a caneta da mão.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 10h33 [   ] [ envie esta mensagem ]




Do que não tenho certeza

 

 

 

nem sei se queria esse presente

desejado,

desencadeio contradições se

rasgo a fita que o envolve,

todos o almejam

e o festejam,

não sei se o queria

exatamente a ele

ou a sua fita que se amarra em mim

antes que eu o entreabra

e comece a pensar

da maneira que esperam de mim,

não quero essa oferta

incensada e ancestral

mas, agora passou o momento

de devolução.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 08h58 [   ] [ envie esta mensagem ]




Primavera

 

 

setembro já veio colher as flores

que o inverno adormeceu

na fecunda hibernação,

setembro surgiu no alvoroço

de tudo tingir e corar,

inundou minha janela

enviou-me beijos soprados

de pétalas voadoras,

setembro, impulsivo, já me agendou

convites de festas

de formaturas de orquídeas

que desabotoam em pendões,

proporcionou-me enfeites

de margaridas e lírios,

setembro trajou-se de arco-íris

e me arrastou mão-na-mão

ao baile mais colorido

em que entrei de roldão.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 09h06 [   ] [ envie esta mensagem ]




Anjo

 

Vivia como se pedisse licença para estar viva. Ou se desculpando por ocupar um lugar no espaço. Não tinha passado. Nem raízes geográficas ou históricas. Não possuía nome. Chamavam-na por apelidos vários.

Quando criança, miudinha, enfezada, órfã, morando numa tapera, com outra família, sem conhecimentos da origem, comendo das sobras que lhe davam, minha avó a levara consigo.

Na época, naqueles rincões perdidos do mapa, não se cogitava em adoção legalizada, questionários, tabelião, burocracia.

Ela se foi pela mão da senhora, minha avó, e passou a ser cria da casa, daí em diante. Não fazia nada, mas fazia tudo o que lhe pediam e que estava ao seu alcance de menina. Começou sendo babá de meu pai e, por extensão, de qualquer criança nascida na família.

Poderia ficar à toa, porém não era esse seu feitio.

Para dar-lhe um nome, batizaram-na de Rita, porque a registraram no dia da santa. Como se tivesse sete anos. Entretanto, poderia ter menos ou mais idade. Era raquítica, de estatura pequena e feições de índia.

Virou a Rita de todos nós. Não tinha nada de tola, mas, apesar da inteligência normal, não quis saber de alfabetização. Despertou a vitalidade para os afazeres domésticos. Aprendeu todos os truques e quitutes de minha avó, todas as práticas e as mil atividades que uma casa grande e antiga demandava.

Aferrou-se à religião católica professada pela gente que a acolhera. Ganhou seu próprio quarto, seu oratório, suas quinquilharias na cômoda.

À linguagem mutilada que trouxera incorporou mais vocábulos sempre ligados ao mundo do lar e suas tarefas.

Incorporou-se ao ambiente e deslizava nele, observando tudo e remediando as menores falhas. Amava extremosamente qualquer membro da família e tanto se esmerou em servir, em ser útil e prestativa, que se foi apagando como ela mesma.

Realizava todos os gestos amorosamente, sem queixas, sem lamúrias, incansável, serviçal, sem esboçar descontentamento e sem se lembrar de si.

Era uma presença, mas era invisível. Importante, vital, mas como um fantasma querido. Eu nunca soube absolutamente nada que lhe dissesse respeito. Sua vida era a vida da família, do bem-estar dos outros, seu desejo próprio não parecia existir.

Rita escorregou pela vida. Começou a adoecer, quando meu pai lhe notou as pernas inchadas. E a levaram ao médico que constatou doença cardíaca. Nada mudou. Ninguém conseguia fazê-la repousar. Apenas tomava religiosamente os medicamentos. E continuava a servir, a servir aos outros.

Sobreviveu até perto de cem anos. Velhinha, mais miúda, enrugada, quase cega, ainda tentando auxiliar as serviçais de minha avó.

Talvez nem tenha percebido quando morreu. Porque se foi rapidamente. Sendo tão pequenina, seu último suspiro foi no colo de uma de minhas primas. Foi uma perda irreparável para nós. Uma vida mínima. Uma vida de gigante. Ou de anjo.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 10h58 [   ] [ envie esta mensagem ]




Tragi-comédia do cotidiano

 

 

 

não me venha com afago

quando meu momento

é de definição,

tire a mão da minha coxa

você sabe que amo

discutir a relação,

não me deforme

a blusa, caríssima,

que comprei à prestação,

ande e faça o combinado

ou vai traumatizar minha filha,

lá na porta do colégio,

esperando condução,

não quero agora

essa bandeira de paz

nem sua  explicativa vã,

e não vou querer jantar

só quero meu lexotan.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 17h12 [   ] [ envie esta mensagem ]




Somos nós

 

somos par,

somos um par,

de forma tal

que somos

dois inteiros

emparelhados

colecionando flores

fracionando dores

repartindo amores!

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 18h09 [   ] [ envie esta mensagem ]




Fixação

 

 

Uma verdadeira mania era a dele. Esse jeito de prestar atenção em cabelos de mulheres. Alvo até de gozação de amigos. Todos se voltavam para ver uma moça requebrando, observando diretamente as partes interessantes que se mexiam. Ele via a cabeleira, sobretudo se fosse longa, abaixo dos ombros, fazendo um xale sobre as costas. E partia para a sedução dos cabelos, e não propriamente da portadora deles.

Quanto se inebriava nos embates amorosos, em meio aos cabelos sedosos, macios, espessos das namoradas que escolhia, pelos cabelos!

Mas, buscava sempre novas cores, texturas, perfumes e formatos de cabeleiras. Ficava,

 às vezes, enamorado pela moça que portava seu fetiche, mas a atração de conquistas o levava à procura de outra mais recente mecha de ondulados que lhe chamara a atenção.

Porque não lhe importava se fossem lisos ou cacheados. Importava o comprimento dos cabelos. Que ele dizia gostar mais de molduras, como chamava as cabeleiras, do que da tela mesma, que seria o rosto e os demais componentes do corpo.

Mas, no dia em que se sentou naquele cinema, não conseguiu assistir ao filme, devido à cabeleira densa, negra, brilhante, lisa e ondulante que percebeu na poltrona da frente.

Grudou os olhos nela e passou as horas da projeção, imaginando-se mergulhado naqueles fios.

Acabada a sessão, seguiu a moça, que caminhava ao lado de uma amiga, talvez. Abordou-a gentilmente. Sabia todas os passos da conquista. E conseguiu, mais uma vez, a obtenção dos favores da jovem.

Com o tempo, ela entregou-lhe seu objeto de desejo, mas, em troca, roubou-lhe o coração. Fato inédito, ele se apaixonou perdidamente por ela e se viu o homem mais afortunado da terra, diante de um amor recoberto e emoldurado por magníficos cabelos.

Casaram-se até. E ela se orgulhava dos arroubos amorosos dele, à simples visão das madeixas espalhadas pelos travesseiros.

E veio a doença. Terrível, devastadora. Sem aviso prévio. Já no hospital, depois das primeiras. sessões de quimioterapia, a enfermeira cortou-lhe rente os fios que já se desprendiam da cabeça. Em meio às lágrimas dela, a enfermeira não avaliava a profundidade daquela dor.

Ele recebeu a cabeleira, como um troféu de desencanto, e colocou-a numa caixa, sobre a qual chorou perdido, até se ver seco e desfibrado.

Tempos depois, ele conservava, no criado mudo, lado a lado, as cinzas da amada, dentro de um vaso, e os cabelos negros, na caixa. Seu culto se ampliou. Daí em diante, evitava ver cabeleiras que passavam por ele, porque não as buscava mais. Achara já a mais bela e duradoura.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 10h37 [   ] [ envie esta mensagem ]




Disposição

 

no corpo-a-corpo com o mundo,

suicido-me em moto contínuo,

em lentas perdas sem recuperação

nos músculos distendidos na luta,

de mim, no tatame ensangüentado,

sobrará, talvez, o sopro ainda audível

da voz em débil fibrilação

emitida diretamente

de um exausto coração.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 12h18 [   ] [ envie esta mensagem ]




Definição

 

 

A tarde é uma despedida,

entre o toque dos sinos

e o encerramento das portas comerciais,

seguimos pelas mãos do ocaso,

em partículas de adeus,

repetido aos retalhos,

no lusco-fusco diuturno,

não é mais dia, não é mais luz,

a tarde é o adiamento e a espera,

é o provisório a se instalar,

corpos que se conscientizam

do cansaço amigo e salutar.

 

As tardes são feitas de lembretes, rascunhos e esboços.

São descompassos fugazes prá  retemperar a aspereza.

São gotas de água fresca nos intervalos da competição.

 

Ah! As tardes domingueiras, as tardes estivais!

 

A tarde, estribilho do adeus, é, no entanto, promessa...

promessa plena do mistério e do sonho da noite.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 12h58 [   ] [ envie esta mensagem ]




Mudança de estação

 

o verão deslizou em nuvens

vermelhas

entre clarões e

rápidas tempestades,

era a vida mais intensa

mas não suficiente

como a vida maior

que em mim se instalou em

céus desmaiados

com chuvas intermitentes

que gotejam ainda mornas

sobre meus passos decisivos.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 17h17 [   ] [ envie esta mensagem ]




Faxina

 

venho de tantos caminhos

poluídos, ensebados, desgastados,

que meu verso asfixiado

se arvora em elevada pretensão

de pulverizar detergentes florais

e lançar mão de mágicas vassouras,

meu verso que nada sabe

esfrega o chão com aromas,

pretende a higiênica aurora

ensaboada de palavras de limpeza,

enquanto, inexorável, cai

a noite espessa e irônica

a soterrar no imenso negrume

minha inútil e serviçal proeza.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 14h21 [   ] [ envie esta mensagem ]




Transversal

 

no sereno que borrifa meus cabelos

vem a mão de minha mãe

no tremor dos banhos da infância

meu choramingo no cômodo frio,

prá quê banho, minha mãe?

criança não tem sujeira

nem que se enrole na lama

e escureça os lençóis,

a pureza não se macula

na superfície da pele,

hoje, sim, minha mãe,

preciso

de sua mão

nos meus cabelos molhados,

de sua carícia impressa

nessa alma enegrecida

nos lodaçais de outros caminhos,

de sua doce ladainha

prá me desentorpecer

dos chicotes dos temporais

que há muito conspurcaram

a brancura dos meus varais.

 

Dora Vilela

 



 Escrito por Dora Vilela �s 17h54 [   ] [ envie esta mensagem ]







 
 
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