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Opção
a madrugada reside em mim
com seus sons incoerentes
que significam tudo
ou nada,
os sobressaltos de meus mergulhos
fazem ruídos audíveis e prometem
nascimentos,
mas, morro devagar, a cada desencanto
que sobra do momento mentiroso,
no entanto,
nessa busca, que não se encorpa
e não traz à tona a aflição,
reside um gozo patético
um inaudito prazer
de estar suspensa em tempo nenhum,
desdenhando o palpável cenário
que a iluminada manhã
inevitável trará.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 12h58
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Armarinhos
agarrei a tarde que ia passando
cheia dos passarinhos
e cigarras enlouquecidas
no cio da espécie,
os fiapos de nuvens
os derradeiros dourados
e ainda o verde arvoredo
que enrolo nos dedos
mesclando saudades,
aí me instalo na vida
e só desejo ficar
esgotando os olhos
com tantos guardados
que vou usar mais tarde
para fiar e coser, desenrolando
novelos de memórias
nos tecidos que vou bordar.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 14h19
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Inferioridade
Sempre pensei que sabia olhar estrelas,
e nunca percebi que elas é que espiam, há séculos
-testemunhando nosso ridículo pescoço erguido_
esta fugidia aventura que abaixo delas realizamos.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 21h58
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Proveito próprio
vento que traz
o que quer,
chuvisco no olho
areia do mar,
quero seu leva-e-traz
para deixar atrás
o que levo adiante,
empreste-me
seu cego movimento
e leve de mim
minha óbvia palavra
que num átimo de tempo
já vai virar
enjoado lamento.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 08h53
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Nada a ocultar
por tudo que errei
por tudo que não errei
me deixei saudade
pelos traços que fixei
e viraram tatuagem
pelos arabescos que persegui
pelas fendas que esculpi
e me tornei prisioneira
procuro agora a sombra
que ainda amo em mim
do meu perfil no espelho.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 14h20
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Tons sobre tons
os recados da vida
não me chegam cor-de-rosa
nem minhas retinas
têm memória dessa cor,
meus olhos escuros de nascença
talvez já fossem sobreaviso,
mas as mãos aprenderam
as cordas da harpa
os pés se espojaram
na terra molhada
os cabelos se arrepiaram
na morna brisa
o corpo escolheu preferências
de frutas de polpas doces
e as mensagens
que hoje me aportam
não trocaram de cor,
meus olhos aprenderam a colorir.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 20h04
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Queridos amigos:
Fiquei muito tempo "fora do ar", com os problemas do meu computador, há pouco tempo...Estão lembrados, eu sei. Por esse motivo, ainda não consegui me colocar em dia, fazendo minhas visitas, com tranqüilidade, respondendo aos comentários como me apraz. Queiram me desculpar, me dar "um desconto"...rs...,me aguardar. Eu chego lá.....
Beijos a todos.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 22h03
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De águas ou origens
não sacio a sede
dos que buscam palavras
de água tratada,
meu vocábulo é
coleante de cobra no chão
e mais quer a fonte entre as pedras,
meu palavreado cerca
só aquilo que enxerga
bem perto do natural
_ e se abeira da mina d´água
antes que aumente o caudal.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 07h59
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P. Cesanne
Resgate
não retalho versos da minha carne
não é uma entrega que faço,
nem holocausto,
mordo a vida pelas beiradas
e lambo o sumo das feridas
no escuro de meu ser,
não rasgo o ventre do mundo
e não sou voyeur de mim,
denominem como quiserem
o que escrevo,
a mim não importa
a nomenclatura
daquilo que me salva
no momento de viver.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 14h20
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Chalé
em tardes tristonhas e frias
construo minha casa
justo no meio dos gelos
em montanhas de altitudes,
exagero até na neve
invento cobertores
e lareiras de tijolos,
enfim componho o principal
quero, porque quero
seu corpo aquecendo
por contraste
minha pele glacial,
seus lábios ardendo
a ponto de abrir fervura em
nossa bebida
de chocolate natural.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 09h05
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Razões
indagam-me dos meus contra-sensos,
não sei o que responder,
sou veludo, concordância, aquiescência
mas sou o tecido de couro,
arreliado, às vezes, áspero,
no entanto, minhas discrepâncias se introduzem
entre vapores que aspiro
e se esvaem nos suores que transpiro,
acho bom ser amada
fartar-me de mimo carinhoso,
mas essa experiência
me põe a perder,
o mundo não cabe no meu quintal
o mundo é vasto e variado,
contrario meu senso
para nele me encaixar
e então pôr em prática
o experimento de amar.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 10h35
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Casal
Quase sempre é assim que acontece. Ele se esquece de voltar para casa. Fica namorando a tarde, engancha-se nas multidões, acompanha ruas, embala-se nos sons do trânsito, come pastel com cerveja, perde o endereço dela. Ela esquenta a comida, afasta a cortina, espia a janela. Ouve seus passos. Desengana-se. Olha o relógio. Repassa o batom. Liga o som. Balança as pernas no sofá. Olha os ponteiros lentos. Segura os lábios trêmulos. O choro sobe e arde nos olhos.
Ele aterrissa na sala. Vai até o corpo que dorme no sofá. Ajoelha-se e faz cócegas que sobem no pescoço até a boca entreaberta. Beija-a de leve, continua seu sonho em andamento. Os braços, que eleva ao enlaçá-lo, desprendem as estrelas que ele trouxe nos olhos e o recebem sem mágoa.
Vem, moço bonito, fecha a janela, vem, meu sol da noite, esquece a mesa posta, que você é meu sal, despe meu traje de espera, que minha espera acabou, inaugura de novo essa aliança, que a música apenas começou e o desgosto da promessa quebrada fica para depois.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 10h11
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Preferencial
costume meu mesmo,
não me levanto com os galos,
dou bom-dia ao sol
já amadurecido,
engulo a alvorada
no quarto,
há algo em mim
que me renega a manhã,
há um pudor
que me resguarda a claridade,
ou é a ressaca da poesia
a qual bebo
nas trevas,
quando seu sabor
é mais denso
e mais nutritivo
ao meu habitual ser noturno.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 14h51
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Malcriada
vontade de chupar laranja de gomos
jogar casca no chão
e cuspir caroços
prá longe da ecologia
que está de marcação
com minha rebeldia,
não entende meu medo
de esterilizar o mundo,
varrer-lhe a poeira
misturada, por engano,
com o pólen da colméia,
e permitir que meus filhos
um dia, sem escolhas,
se enterneçam
com a flor de matéria-plástica.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 21h42
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Percorrendo a inexpressão
O grito ficou preso e a explosão se esvaziou em prece de murmúrios lamentosos...Inaudíveis. A imensidão da tristeza, interior demais, não se expressa, sem primeiro desfazer a dimensão abstrata e vazia. Um grito é só um som. Um vocativo solto. Uma onomatopéia ridícula de quase animal. É preciso liquefazer a densidade do sentimento para exprimi-lo. Uma dor imensa em excesso não se exprime. É muda. É paralisante.
Ela provoca cegueira, enrijece e entorpece os canais que a fazem ser comunicada.
Uma dor pungente consome como fogo, e só na sua matéria de cinzas consegue ser expulsa de nós. Ela tem a etapa de arder com a força das altas labaredas, depois arrefece lentamente nas brasas ainda rubras, para finalmente ir passando às fagulhas leves, provocadoras da derradeira fase, a das cinzas puras, ainda mornas e meio consistentes, que enfim o vento leva...
Em meio à dor que aperta a garganta com dedos de aço, é preciso esperar, no tempo. Para depois, delas sair na fênix da linguagem...
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 10h33
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