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Esse texto não se arvora em ser “uma resenha”. É antes um convite de leitura.
Temos uma amiga blogueira, Márcia do Valle, que escreve seus textos no www.soltanomundo.blogger.com.br . Agora, podemos fazer a leitura de Márcia nas 160 páginas do livro que ela publicou: “ 180 graus”.
Márcia se encontra aí, na forma de um romance moderno e inquietante.
De um jeito bem interessante, duas narrativas se intercalam na estrutura do livro. Duas mulheres, Clara, a brasileira-carioca, e a outra, a francesa.
De uma certa forma, as duas se entrelaçam na trama, protagonizada por Clara.
As vozes de ambas percorrem todo o romance, em discurso indireto, sendo que a narradora se refere à brasileira, sempre em terceira pessoa, e à francesa, em primeira pessoa.
As duas mulheres, que não se conhecem, questionam o casamento e os parceiros, os quais apenas “enxergamos” através delas.
Clara parece a imagem da independência feminina: uma mulher universitária, que trabalha fora, dirige seu próprio carro, vai à academia, cuida da nutrição. Mas, advinda de uma formação repressora, é completamente presa às conveniências sociais, não conseguindo se desvencilhar de um casamento que a torna infeliz e insatisfeita.
Em todas as páginas do livro, Clara se angustia em pensamentos e reflexões, numa tentativa frustrante de encontrar uma solução libertadora, de 180 graus. Quer cortar os laços com a vida monótona de casada e com a rotina do trabalho repetitivo. Mas, vive em pensamentos e inércia. Seu sofrimento(misturado a “fagulhas” de alegria) vai, gota a gota, se esparramando nas linhas, em forma de um fluxo mental de idas e vindas, voltas, dúvidas, anseios, incertezas.
A francesa, entretanto, se lança no risco e abandona o companheiro. Sua tomada de decisão é menos dolorida, porém não menos problematizadora.
Ambas tentam o giro de 180 graus. Pode ser que tenham conseguido. É preciso fazer a própria descoberta, lendo-se o livro.
O melhor dele é a estrutura e a escrita de Márcia, que vai costurando as falas da protagonista com mil idéias sobre pequenos eventos do cotidiano, sobre mínimos dissabores, sobre “coisinhas” miúdas do dia-a-dia, (de uma forma saborosa e leve), das tensões de muitas de nós mulheres dessa época contemporânea.
Eis um livro que devemos degustar: “180 graus”, de Márcia do Valle.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 19h25
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Imanência
era no entardecer
minha mania de chover em lágrimas
de puro nada dentro
uma agonia da voz do vento
que nem comigo mexia
ao me encrespar os fios
era no lusco-fusco
minha errância de tristeza informe
meu medo vazio de coisas
era no crepúsculo que eu morria
de angina ou de nevralgia
por ansiedade não sabida
era no pôr-do-sol
minha identificação
com a finitude dele
e de mim.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 08h40
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Natureza morta
árvores em chamas
raízes desagregadas...
E o louva-a-deus em sua pose inocente!
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 10h43
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Permanência
minha fuga é banal
vai passando por mim
que sou outra e outra,
como um moinho triturando
o grão que se transforma
pouco a pouco
até não ser mais grão,
porém sempre grão,
agora existo assim,
atrás da porta _que fecha o instante_
já sou o que fui,
mas ainda sou.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 19h52
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Inefabilidade
já tive momento de pegar estrela na mão,
sabe aquele momento que morre junto
com a gente?
porque jamais conseguirá envoltório de palavra
nunca alcançará a luz de fora
nem com fórceps de frases,
nem mesmo com cesáreas expressões,
é aquele momento pronto e luminoso,
com peso, altura
e amadurecimento,
mas que não nasce,
é colado ao ventre do pensamento
onde fica a latejar e a existir
risonho e motivador
agitando braços e pernas
numa mostra de alegria
deixando só a vantagem
do agradecimento e regozijo
pela estrela que me pôs na mão.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 16h15
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Ao Diovvani e Úrsula:
Vocês não acreditam na minha aflição com esse "haloscan"...Simplesmente ele não me deixa responder ao que "vocês" escreveram na página de comentários...O nome de vocês é "pulado"...no momento em que respondo...rs Coisa mais estranha e inexplicável...Estou colocando essa reclamação aqui, porque já aconteceu antes com outros leitores, que ficam sem respostas, devido ao "procedimento" dessa máquina louca que se chama computador! E que eu não sei sanar...
Minhas desculpas a vocês, portanto.
E meus beijos.
Dora Vilela.
Escrito por Dora Vilela �s 11h47
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Localização
Vivemos da infância, sendo que quando estávamos dentro dela, não tínhamos essa consciência. Cada ato de hoje é recolhido de lá, da meninice que florescia incauta e poderosa.
Lá é que nosso corpo experienciava o fluir do tempo, colhendo as sensações, as densidades das coisas, que conseguíamos absorver, sem tentar penetrá-las à força do pensamento. Víamos um cavalo e ele era uma descoberta, um espanto, e apreendíamos seu jeito de estar na realidade, sem que outras idéias pré-fabricadas toldassem nossa alegria de vê-lo. Deparávamos com o mar, e a visão dele nos engolia, nos fascinava, nos embevecia, apenas porque ele era aquilo: uma imensidão de água, ruidosa, em constante mobilidade, porque eram as ondas que nos davam sua mais próxima noção. Não havia a quantidade de informações vindouras que, de alguma maneira, deturpariam o sentido primeiro e básico. O mar não virara símbolo ainda. Era só o que ele é: água salobra, preenchendo a superfície da terra e se enovelando, se balançando, tão distinto das outras águas grandiosas, como as dos rios que seguem outras leis.
Descobertas da fase infantil são encontros com a raiz das coisas, dos fatos, dos fenômenos. Nossa inocência é edênica e nossa linguagem, no tempo dela, é gestual e atávica. A criança que percebe um inseto verde, pela primeira vez, emite sons, de puro êxtase, que já constituem a linguagem a se manifestar, porém límpida, pessoal e universal, ao mesmo tempo. Não há um elemento anterior, nem censura, nem limite, que a oriente nessa exaltação. Há apenas a primitividade do ser em face do desconhecido. E as coisas existentes estão expostas e nuas, à frente das pupilas virgens. Um muro tosco provoca o enlevo infantil. Uma pedra qualquer dispara a atenção do pequeno ser humano. E essa pureza de olhar e ver privilegia a etapa mais livre que já pudemos alcançar, existindo...
Então, o mundo se estende intacto diante de nossa puerilidade. Depois é que ele vai ficando opaco, porque a sensibilidade vai se amortecendo na repetição do olhar, o hábito mental vai se estabelecendo, o brilho do novo vai se gastando. A desatenção pelo “já visto” chega de mansinho e, de repente, desfilamos entre as mesmas realidades sem notá-las. É necessário muito enfeite e rebuscamento e escândalo e excesso e tumulto...para o humano ser adulto se surpreender. O mistério delicado das coisas naturais e simples deixa de causar sensação e precisa causar sensacionalismo. E mesmo com a infância ressoando, numa concha oculta, o homem, sério agora, não a ouve, devido ao ruído ensurdecedor da natureza sofisticada, a única que agora lhe resta e onde vai exercer seu triste ofício de viver.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 13h15
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Queda
Quando menina, eu procurava recantos pequenos e meio ocultos onde compor minhas brincadeiras. Na casa da avó paterna, de arquitetura antiquada e sem rebuscamento, encontrava uma riqueza de cantos inúteis, distribuídos por toda a área da construção.
Meu preferido ficava no imenso quintal de terra, num ângulo que ele desferia por trás da última parede da casa. Local úmido, com pés de chuchu, cujos galhos se trançavam com outras trepadeiras e recaíam sobre vãos de samambaias. Uma desordem de vegetais.
Mas, meu encantamento todo residia nos bichinhos. Apaixonei-me pelos incontáveis caramujos, de todos os tamanhos, que deslizavam pelos ramos.
À primeira vista, assemelhavam-se a bolinhas, mas meu coração se agitou quando enxerguei-lhes as antenas saindo e se movendo. Fascinou-me o fato de carregarem sua concha-moradia, como um trailer puxado pelo carro. E não sentia nenhuma repulsa por aquelas lesmas que deixavam pegadas de uma gosma grudenta .
Pegava-as delicadamente para não destruir-lhes as frágeis crostas, examinava-as, nas suas espirais concêntricas, na sua consistência áspera, admirando-lhes a perfeição. Colocava os bichinhos rente ao muro para vê-los escalando-o, vagarosamente. Armava uma corrida de caracóis e permanecia perdida no tempo, só olhando-os, lentos, lentíssimos, galgando as distâncias milimétricas.
Um dia, minha mãe me encontrou nessa distração e, ao perceber meu manuseio dos pequenos moluscos, horrorizou-se. Fez-me lavar bem as mãos e prometer que não mais brincaria com aquelas lesmas nojentas, transmissoras de doenças ao ser humano. Eu era impressionável e tremi com aquelas revelações entremeadas de palavras que me soaram como ameaça mortal ao meu organismo.
Entristeci-me até a alma com aquele paradoxo de que amigos a quem eu amava tão extremosamente pudessem me causar danos. No meu exagero, enxerguei-os, daí em diante, como gênios do mal. Minha relação com eles passou a ser de amor e ódio. E, sobretudo, saltou desse acontecimento uma espécie de ruptura da minha inocência, que via em mim mesma um prolongamento do mundo. Vi-me, repentinamente, consciente de uma separação dos elos que antes me ocorriam naturalmente com tudo o que era vivo. Não culpei minha mãe. Nesse tempo, ela era a voz da sabedoria. Mas, fiquei muito tempo cabisbaixa com saudade de minha vida anterior, e cheguei a pensar na inutilidade de minhas mãos que anteriormente podiam tudo e perderam esse poder.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 21h06
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Sebastião Salgado
Globalização
não ando coabitando bem num corpo
que me enlouquece com os lamúrios
da dor e da miséria que não são minhas
mas me pertencem por solidária comunhão.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 12h23
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