Interlúdio

 

 

vem do jeito que quiseres

e eu saberei o que te escureceu

achega-te e eu só te olharei

e perceberei tuas nódoas

segura minha mão

e eu sentirei teu sangue

que me contará tua ausência

confia-me teus contornos

e eu decifrarei tua sombra

és a pele que me faltou

e que me ardeu na distância

és a minha expiração que retorna

e que se solta da minha garganta

pois que sem anelo eu me detive

nesse interregno em que a noite

furtiva então te levou.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 08h27 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

 

Indolor

 

 

 

 

Sem exatamente perceber a tarde tépida, ela sai automática pelo portão da frente.

Ganha a calçada da rua e penetra no rumor dos passos. Distancia-se, na displicência das sandálias soltas nos pés, sem as tiras que prendem o calcanhar.

A saia vaporosa ondula pouco na falta de vento. Atmosfera opressiva, na carência da brisa marítima.

Ele, o mar, ao longe, espuma brancamente.

A imensidão do oceano já exerce efeito nela e a tarde se desfaz. Não há tempo nas areias molhadas onde se senta.

A pele arrepia evaporando o suor. E a dor de faca afiada se abranda.

Mergulha as mãos na areia e vai se deitando lenta. O corpo flutua no fluxo-refluxo. Ela se torna imponderável. Um torpor a envolve. Como depois da morfina. O mar, numa carícia hipnótica a rodeia. Ela permanece em seus braços.

E na maré alta, bóiam as sandálias em meio aos sargaços.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 23h24 [   ] [ envie esta mensagem ]




Pessoal, gostaria de avisar que o haloscan está com problemas.Não consigo responder os comentários. Ele "falha" e só responde um ou outro....rs É preciso usar o comentário das letrinhas e números....

 

De pouco

 

 

 

 

 

não tenho asas dentro de mim

vivo aos percalços e de nariz no chão

meu experimento não usa fantasia

vivo de esgarçados cosidos cotidianos

que passo a emendar com dedos de fiandeira

meu fazimento é de mãos na massa

não voejo além do meu interdito

sei do sol que nasce porque ele me sobrepõe

pressinto se vem chuva por necessidade,

pouca poesia me cerca

mas, eu a desentulho por onde ponho os pés

porque careço de seu forro para o meu trivial

e do seu manto na minha falha de crenças.

 

 

Dora Vilela

 



 Escrito por Dora Vilela �s 08h21 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

Quase

 

 

era eu aquela menina

de cabelo negro cacheado

miúda, miudinha,

olhos acesos

prestando tento na noite

desmesurada de não acabar?

era eu aquele serzinho

enfiado na vida

imitando adulto desassombrado

e transpirando pavor

da trovoada a rolar nos morros?

sou eu

aquela menina, miúda ainda,

de cabelos mais escorridos

com réstias de grisalhos

olhos quase rasgados

no desejo de alongar a noite

(descanso do dia)

ansiando ser criança

na escuta do trovejar

que hoje até produz

uma serena e estranha paz.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 18h04 [   ] [ envie esta mensagem ]




Poema simples

 

 

 

 

não sei a origem do mundo

(conheço as teorias provisórias),

não sei o poço fundo onde termina,

sei que existo

(por evidências que experimento),

não sei quem sou

(sou a mais estrangeira de mim),

nessas tensões, vou realizando

meu bordado de rendas

(que sou prendada)

e me atenho apenas

no que a vida ativa me ensinou.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 10h11 [   ] [ envie esta mensagem ]




Sintomático

 

 

 

 

medo, ansiedade,

suor frio,

vida no avesso

coração na boca

mãos trêmulas

fôlego curto

pernas bambas

esforço prá engolir

taquicardia

vale a pena tudo isso

por uma onda magnética

que corta o ar

trazendo sua voz mensageira

dizendo que aceita

o convite prá jantar?

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 21h26 [   ] [ envie esta mensagem ]




Ao menino João Hélio, que não deve ter entendido nada antes de morrer

 

Ele entendia, sim, quando estava tão seguro e amado, perto dos seus queridos. Percebia que era guardado e protegido pelos laços daquela moça que sorria para ele, desde o berço. Por aquele moço que o apertava nos braços, por aquela menina que brincava com ele, chamando-o de irmãozinho.

Ele estava conhecendo a beleza da vida, encontrando seu lado amável e se fortalecendo para os rumos que, com certeza, poderiam ser mais amargos, longe da constelação familiar.

Mas, não teve tempo para se tornar forte. Ainda atônito, sentiu-se arrancado, no meio do caminho, perdeu todos os rumos, perdeu a mão materna que o tentou segurar.

Tiraram-lhe o chão. Levaram-no, brutalmente. Em sua inocência, não deve ter entendido nada.

E nós, que aqui ficamos, também entendemos pouco. Estamos ainda perplexos. Paulatinamente, vamos nos conscientizando da crueldade que o vitimou. Ficamos inquietos, porque os seus agressores são da mesma família a que pertencemos: a família humana.

Temos que pedir perdão ao menino. Mesmo estonteados, sabemos que, de alguma forma, devemos desculpas a ele.

E ele, que não entendeu nada, talvez não entenda o tamanho da nossa vergonha.

Mas, com certeza, na dimensão que ganhou, agora, estenderá as mãozinhas e nos perdoará.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 14h30 [   ] [ envie esta mensagem ]




Despertador

 

risonhamente

esgarçando as dobras da cortina

o sol põe-se à vontade

a alvoroçar os objetos do quarto,

letárgicos e sonolentos,

desliza sobre o toucador

iluminando a poeira perfumada

rabisca o papel das paredes

penetra os cabelos desalinhados

da moça em flor

desenha-lhe as faces

de leve, cócegas nas pálpebras,

roça-lhe os lábios num beijo

expande-se em raios travessos

e sem mais o que inventar

queda-se impaciente

à espera

da companheira de folguedos.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 09h20 [   ] [ envie esta mensagem ]




Economia

 

erroneamente vou me encorpando

no mundo das palavras,

não me esforço de poeta

já nasci estranhada dos nominais

e falando borboletas

armei desentendidos familiais

por não me enveredar

nos rumos previstos prá mim

desencaminhei de gentes

encurtei os necessários

fiquei com o simples

de comer cocada de fita_

e ainda agora olho de esguelha

com meu sorriso sonso

os estafados de vida.

 

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 09h52 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

Minha alegria não é o oposto da dor.

É só a intermitência dela.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 12h32 [   ] [ envie esta mensagem ]




Olá, gente querida! Voltando de curtas férias...e muito inspirada! rs

 

 

 

 

Eureka!

 

não tenho a mínima idéia

do que é amor

e, no entanto, indubitavelmente,

sei que amo você

pelo simples toque de sua mão,

não me debruço

no conceito amoroso

e percebo, nitidamente,

que amo você

nos avisos do corpo,

não adivinho razões

mas sei da plenitude

do som da sua voz_

às vezes, tento uma explicação:

(e uma descoberta)

penso que fui programada

geneticamente

para amar você.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 09h54 [   ] [ envie esta mensagem ]







 
 
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