Tema: Sobre o gozo.

 

Olhado de perfil com a luz diminuída no sombreado daquela tarde, o nariz se revelava mais afilado do que visto às claras no pleno dia. No todo, o rosto era agradável sem ser bonito, mas, no detalhe de cada traço fisionômico, nem tanto. O nariz olhado pelo ângulo vertical que me era possível, lembrava uma vela, como se estivesse alçada em mastro suspenso pelas sobrancelhas, e apoiado nos lábios, formando as metades do casco de uma canoa. O movimento de aproximação e afastamento desigual dos lábios, nesta imagem, eram representações de ondas, em um navegar agitado pela fala entrecortada, quase ofegante, resultante da  ligeireza dos nossos passos. Caminhávamos com pressa, em conversa murmurada e vaga, lado a lado, fugindo do chuvisco e da noite que seria fria.

A grande avenida da metrópole transforma transeuntes em anônimos, seres quase iguais, apenas passantes, como buscávamos ser. Já não pretendíamos racionalidades explicativas ao que fora nascendo negado, crescendo dissimulado, e se tornara impossível de ser camuflado.

O desejo simplesmente viera como a lua no seu ciclo, anunciando, dia a dia, a chegada da noite da sua plenitude, cheia no seu cio lunático.

Em nós a paixão brotara do reconhecimento de identidade de idéias, depois na revelação de semelhança de ideais, até ser ente próprio diferenciado, que se erguia soberano sobre nossas vidas. Para conter o desejo, nossa lua gris, necessitávamos de um eclipse, de um sol que ofuscasse pela luz, o brilho espontâneo que pusemos de repente no olhar e refizesse o opaco de nossas  peles que adquiria tonalidade translúcida. Nossos corpos descontrolados nos arrepios aflorados desde a nuca, na aceleração do pulso, faziam brotar suor frio no calor dos dias abafados, e afogueava o rosto na frescura matinal. Já não dormíamos um sono pacificado, senão sucumbidos no cansaço engasgado em silêncio repressor. As lembranças de olhares e gestos, interrompidos de dia, se tornavam carícias fantasmas da noite, que prolongavam gemidos. Nossas  conversações foram se tornando enigmas mesclados de duplos sentidos, já não podíamos correr o risco de mero roçar de pele, um leve e descuidado toque poderia nos incendiar, éramos perigo iminente de explosão. Como se nossos átomos, fora das órbitas originais, buscassem nova harmonia, guiados pelo desejo da invasão física no outro. Não nos suportávamos mais individuais, nos desejávamos de companhia, desintegrados seríamos narcisicamente recompostos.

Naquela tarde fugimos, sem motivo plausível, rompemos a disciplina pelas infinitas razões, da ausência de razão quando o desejo da paixão triunfa. Não fora preciso planos prévios, as conveniências nos levavam aos fortuitos destinos que os anjos, sensíveis às aflições humanas, nos conduzem.

Pelo nosso andar apressado era de se supor que sabíamos para onde íamos. Não, apenas buscávamos sobreviver, tínhamos reconhecido na própria carne a verdade dos romances, também se morre de desejo.

Poucos passos a mais e entramos, sem bagagens, sem lenço e com algum documento nos instalamos frente a frente, sós, acompanhados pelo que não podíamos mais conter.

Nos beijamos, nos apalpamos, nos abraçamos, nos despimos, nos reconhecemos. Nos sentimos, nos transpiramos, aspiramos, sorvemos e  bebemos. Acordados sonhamos fazendo adormecer nossa longa e ardente vigília. Nos subornamos, mentimos nossas verdades, nos revelamos escancarados a mentira de nossas vidas. Trespassados nos possuímos em volúpia.

Gozamos e desejamos, recomeçamos, refizemos o gozo, tantas vezes até nos certificarmos exaustos, que não nos diluímos. Nas secreções mescladas com  as pulsações confundidas, novos odores nos impregnavam, nova tessitura brotava ao tato descobridor de prazeres guardados e até então negados.

O nariz perfilado se revelava agora em novo ângulo horizontal, os lábios mostravam a outra metade da canoa, sem movimento em remanso de maré cheia e saciada. Silenciosa a boca era moldura de um sorriso repousado.

Nossos corpos não se fundiram na mistura dos átomos em novas órbitas, ainda sobrávamos dois.

A consciência lentamente trazia de volta a unicidade recomposta de nossos corpos, ela apenas começava a nos doer.   

 

 

Este texto foi escrito pela Ana Maria Figueiredo, minha irmã, que se exercita na Oficina Literária.

Dora Vilela            

                                    

 

 

 



 Escrito por Dora Vilela �s 09h12 [   ] [ envie esta mensagem ]




Queridos amigos:

Nosso poeta Diovvani Mendonça teve uma idéia luminosa e feliz de publicar poemas em embalagens de pão!!

Ele explica esta louvável iniciativa no blog dele www.diovmendonca.blogspot.com

E nossa amiga Loba estende esta informação no www.lobaminas.blogspot.com

Vamos participar!

Leiam e verão como é gratificante espalhar Poesia junto ao pão nosso de cada dia!!!!

Beijos.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 13h10 [   ] [ envie esta mensagem ]




Costume

 

 

 

 

passo incólume

na lama da rua

chove mais em mim

que encharcada me carrego

não só de chuva dentro

mas, de águas de outras vertentes

que já evaporaram

e me acostumaram

à umidade do tempo

que, em mim, é liso, escorregadio,

lamacento e líquido.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 10h36 [   ] [ envie esta mensagem ]




Surpresa

 

 

 

Viver é se deparar com mudanças. E quanto mais se vive, mais essa percepção de movimento se aguça em cada um de nós, devido aos fatos que são testemunhados, ao longo do tempo.

Vivi minha infância, adolescência e uma parte da juventude em uma residência. Era espaçosa, clara, confortável, sem grande luxo, mas, especial para minha família. Pertenceu aos meus avós, e meu pai a adquiriu, comprando a parte dos irmãos. Virou nossa casa. Compartilhávamos dela: meus pais, minhas irmãs e eu.

Nela se passaram todas as ocorrências que constituem nossa saga. Ali meu pai e minha mãe nos conceberam. Ali, fomos criadas, juntas, enrodilhadas, interagindo umas com as outras, brincando, brigando, chorando e rindo, eu e as irmãs, diferenciadas por poucos anos de idade. Uma escadinha, como dizem...

Dividíamos, pelos cômodos da casa, as refeições, os estudos, as traquinagens, as brincadeiras, os sonhos.

Corríamos pelo quintal, namorávamos na varanda, balançávamos nas redes, escondíamo-nos em vários cantos, das broncas de meu pai, fazíamos mercado de trocas de roupas e adereços,  conversávamos com as amigas, agitávamo-nos com as festas, aniversários, natais, carnavais, folguedos juninos. A vida crescia em nós, ali, entre aquelas paredes.

Hoje, tudo está longe, gravado no tempo. E em nossas lembranças.

E minha casa acabou, porque não abriga mais uma família. Passei por ela, há algum tempo atrás. Fiquei pasma ao ver, encimando o portão, uma enorme placa indicando vários nomes de doutores. Minha casa é uma clínica médica.

Não resisti e entrei. Minhas lembranças me acompanharam assanhadas. E meu coração deu pulos, ao enxergar a sala de espera, com as visitas que não eram as da minha mãe. E meu quarto era um consultório de uma especialidade da medicina. Os cômodos estavam mudados, com um piso emborrachado. Nossa varanda estava circunspecta, com bancos lacrados no chão.  Ouvi risos. Pensei enxergar minhas irmãs entrando da escola, com suas mochilas. A secretária me olhava, desconfiada, como se não acreditasse no que eu lhe dissera: eu nasci e vivi aqui, moça....Tomou-me talvez por um fiscal disfarçado.

Eu não quis rever as outras dependências. Retomei as recordações e saí com elas, para chorar na calçada da frente, numa derradeira olhada na moderna clínica que empurrou meu passado para bem longe e se instalou sobre ele.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 18h13 [   ] [ envie esta mensagem ]




Sem modos

 

 

 

minha alma é menina peralta,

desacomodada

leva beliscão de mestres

arranja ralhos de caras sisudas

 

minha alma não tem boas maneiras

e segreda versos heréticos ao coração

que vive em reboliço

e dança com ela

ao som de tamboris

violinos ou clarins

 

minha alma não tem compostura

e me leva com ela pela mão...

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 08h30 [   ] [ envie esta mensagem ]




Poema linear

 

angústia derramada na noite

escura noite da alma encarnada,

ruídos vagos se tornam imensos

ratos roedores dos inúteis remorsos

 

na noite os insetos são monstros,

as sombras se espessam em mãos,

em garras e dentes que atacam, ou, não,

 

           meu ser se esparrama em verdades

           buscando no escuro, na névoa

           os fantasmas que teimam em fugir,

 

só à noite, nos sonhos insones

ouço alto o coração,

ansioso, batendo em sobressalto,

na taquicardia do encontro de rostos

que de dia passaram em vão,

 

            não mais procuro,

            não espero mais,

            não nego, só atento com atenção

            no que a noite me tenta contar

 

em sons, em vultos, nas formas,

ela intenta se revelar

a mim, que nada encontro,

até a claridade raiar.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 21h53 [   ] [ envie esta mensagem ]




Nesga de lembrança

 

 

 

 

no meio de nós

pairou o gesto não realizado

 

o cheiro de dama-da-noite

perfumando as narinas

o calor do sol guardado no chão

a noite vaporosa

esgueirando-se pelo portão

 

e nós, ali, na espreita

do misterioso de cada um

que não se revelava

nunca...

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 23h14 [   ] [ envie esta mensagem ]







 
 
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