Valores

 

na manhã do canteiro

a flor se envaidecia

cobrando aplauso

 

 

eu nem fiz caso

da efemeridade

da corola rubra

que se abria

 

e fui pagar a prestação

do meu carro vermelho

que vencia.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 12h28 [   ] [ envie esta mensagem ]




Vivência

 

Entra ano e sai ano, a impressão que fica num observador de acontecimentos é a repetição deles, com escassas novidades.

Assim é que o ano recentíssimo mal aportou e o desenrolar dos fatos já se manifesta, com sabor novo talvez só para mim,  logo na soleira da minha porta, ou, melhor dizendo, na minha vizinhança.

Passadas as folganças das férias de verão, aqui neste hemisfério, vem a folia carnavalesca, neste país, e, em seguida, a nação se espreguiça e desperta para a seriedade das obrigações e deveres.

O ano escolar entra em atividade, alunos acorrem aos bancos de colégio e, na minha cidade, ocorre a cena de início de aulas na famosa faculdade de Engenharia local.

Os calouros, cabeças raspadas, pintados de todas as tintas, maltrapilhos, quase nus, abeiram os sinais de trânsito, para o instante do farol vermelho para carros, a pedir esmolas, em dinheiro, para alegria dos veteranos que tomarão muita cerveja à custa dele.

E a rapaziada, geralmente muito jovem, quase imberbe ainda, recém-chegada de suas cidades longínquas, apartada dos familiares, se põe a procurar acomodações.

Com a designação de “repúblicas”, esse locais que acolhem os calouros, daí em diante, proliferam pela cidade.

Ao lado da casa onde resido tranqüilamente, ergue-se um enorme sobrado, aprazível, bonito e bem construído.

Pois a proprietária teve a idéia de alugá-lo a uma turma de dez carecas, sem temer os falatórios dos moradores da minha rua ou os “desmandos” tão comentados e alardeados que os estudantes universitários costumam realizar.

Pelas peças do mobiliário transportadas pelo caminhão de mudanças, já se concebe uma noção da parte decorativa da recente república.

Descarregaram-se mesas, acompanhadas de cadeiras diferentes entre si, pertencentes provavelmente a alguma tia falecida, uma estante descartada do sótão de alguém, TV bem antiquada, geladeira de anos passados, computador e aparelho de som, naturalmente, além de variadas tralhas não-identificáveis. Mas, algo de muito pitoresco e criativo emergirá da combinação deste caos mobiliário, com toda a certeza.

Apesar das maledicências e dos narizes torcidos, sinto, nessa chegada de calouros, uma lufada de vento fresco e renovador.

Ali naquele sobrado será doravante a vida em comum de dez pessoas, com um objetivo único, simbolizado no desejo de se tornar um engenheiro. Entretanto, será o melhor exercício de tolerância e um aprendizado de cidadania inestimável, a coabitação entre pessoas de temperamentos diversos, portadoras de manias, idiossincrasias, costumes, hábitos e personalidades diversos e até bizarros, muitas das vezes.

Terão que abrir mão, com freqüência, da privacidade e do egoísmo, em prol do coletivo.

Deverão construir a comunidade e a colaboração.

Contudo, não entenderão o jugo tão penoso, visto que nessa fase da vida tudo lhes parecerá provisório, pois o definitivo os calouros colocam além do dia da formatura e do diploma na mão.

Haverá festas, sim, e comemorações muitas, desenroladas junto a lágrimas e desilusões. Cometerão excessos, talvez, próprios da juventude. Haverá momentos de desistência, de arrependimentos, de saudades dos entes queridos, de desentendimentos entre os co-cidadãos da república de estudantes.

Mas, de qualquer maneira, e sem nenhuma dúvida, será uma fase inesquecível da existência de cada um dos dez moços corajosos, que exercitarão a vida provisória, como a julgam, na minha vizinhança.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 11h20 [   ] [ envie esta mensagem ]




Um poema para a amiga Euza-Loba que aniversaria hoje!!!!!!!!

Cotidiano

 

em restos de sonho

acorda a madrugada

 

tateia os chinelos

afasta os fantasmas

(teimosos)

e se apropria de si

 

debaixo d´água corrente

(corpo lasso ainda)

a manhã recém-nascendo

é seu pertence

 

abre as pautas domésticas

que sem o sal da poesia

se alongam

 

:diversificadas

:insossas

:repetidas

 

até o dia envelhecer

e de novo

adormecer seu fardo

 

em afundada madrugada...

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 12h17 [   ] [ envie esta mensagem ]




Atitude

 

o céu noturno tinge as coisas

e as confunde

chamo meus filhos

para o agasalho de minhas asas

receio a noite que os encobre

e lhes esfria os sentidos

_os filhos são do mundo, dizem_

mas o mundo é meu

e de todas as mães

de todos os filhos.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 14h59 [   ] [ envie esta mensagem ]







 
 
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