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Diferencial
atinei com isso:
_sou mulher de segunda-feira
dia de recomeço
no habitual calendário
não quero o descanso de domingo
não quero descansar em dia marcado
meu repouso só existe na solidão
que eu mesma produzo
_sou mulher de irrequieto pensar
e construo mundos prá dentro
de mim
aprecio a distração
de segunda-feira
quando todos se afainam
e não me percebem
na minha invisível
movimentação.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 14h50
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Transformação
alegria de te dizer
lá do fundo, das entranhas
te amo, te amo
e por ti saúdo
o menor inseto
e o verme que rasteja
por ti quero crer
em perenidade
aprender salmos e hinos
por ti quero a inocência
e o êxtase da crença
de que Deus criou
aquela cachoeira que vimos
e que nos aspergiu gotas
de bênçãos e nos enviou
(até isso me fizeste)
o terrível e maravilhoso
estrondo de uma voz
que nunca poderia
ser humana.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 09h53
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Domesticação
meu corpo é tátil
em constante vibração
insaciável penetra
na ressonância
da total realidade
minhas toscas arestas
se atritam nas coisas
a buscar suavidade
meu corpo orgânico é selvagem
exaltado pelo instinto
que um dia o gerou
quero meu corpo de espinhos
cinzelado pela beleza do mundo
quero meu corpo apaziguado
antes que sua energia se escoe
e ele se esgote inacabado.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 20h49
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Trinados
meu carinho curva-se a ti
num arremedo de asa
de ave ferida
busca pouso em teu peito
sobre o ritmo cadenciado
que repete meu nome
minha ternura fala sem voz
na concha do teu ouvido
em muda confissão
minha boca murmura o nosso enredo
em bicadas de carícias
de trêmulo desejo
tua resposta não tarda
nessa noite que se arrasta
para ambos, nós,
feito pássaros
da aurora.
Olhem meu presente! Ganhei do Jens, o gaúcho arretado!
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 13h17
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Laços que remoçam
O mundo chega perto de mim carregado de companheiros de folguedos, feito minhas netas que me rodeiam e me vêem como a criança maior.
Os adultos explicam a elas, “respeitem sua avó” e elas me olham sem entender onde está a falta de respeito quando me puxam pelo braço com a mão grudenta de alguma guloseima, porque interrompemos a brincadeira.
Elas sabem que sou mais alta e mais rápida no pega-pega e no esconde-esconde, e que, às vezes, atendo o telefone e fico séria, como dizem. Fora isso, somos três coleguinhas, ou três irmãzinhas, que se empurram, se agarram, se alisam, se acarinham. Não há meios de elas perceberem que sou uma “avó”, substantivo que engloba tanta definição!
Meu nome é “avó”, como elas possuem os nomes também. Só isso.
E na praia, a gente adulta, apavorada com os grãos de areia que lhes grudam nas pernas, não deve aprovar nossa posição, deitadas, as três de bruços, cavando a “gruta” que a água do mar vem ocupar, fazendo nossas piscinas.
E nem os gritos que soltamos com os respingos na face, quando esperamos as ondas, como jacarés, bem no rasinho...
Vêm outras crianças e entram na nossa farra. Num primeiro momento, estranham a moça que brinca e parece esquisita. Depois, sem perguntas, já pulam na água me usando de escudo e me aglutinam na turminha.
Comemos em conjunto, e as regrinhas básicas de mastigar alimento de boca fechada, sem alarde, provando devagarinho o sabor, elas mimetizam, olhando a avó, amiga mais velha, sem precisar de lições teóricas. A imitação delas é espontânea. E o alvoroço é quando se aposta quem ficou mais forte, depois de comer tudo!!!!
Brinco de viver enquanto elas permanecem a minha volta. Vivo de brincar nos instantes que se escoam lúdicos em cada situação. Risos, contatos, afeto solto, se expandindo no ar, em que livres voamos, todas, na mesma etapa da infância...
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 10h22
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Poema enganoso
nas altas horas da noite
minhas palavras me saem
bêbadas
e tentam me envenenar,
supõem-me dormente
e me entornam nos lábios
o vinho que trouxeram
do meu íntimo festim,
não sabem que trago seguro
meu antídoto nas veias_
nas vias que minhas lágrimas
aprenderam a fabricar.
não acredito em minhas palavras noturnas
de uns tempos pra cá...
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 19h27
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Uma singeleza para vocês...
Edificação
a casa
construída na rocha
com argamassa de beijos
alicerce de paixão
pendurados os vestidos de flores
cortinados de janelas
o sol sem convite
mergulha
na varanda despudorada
saudando
os inquilinos do amor.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 11h50
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Dimensões
no choro do mundo
minha dor miserável
é só uma gota
na colossal sinfonia
o mundo enterra seus mortos
escrevendo a história coletiva
no momento em que
meu anônimo sofrer
é o mínimo ponto da cena
que importa ao mundo
um lamento a mais
no coro dos gemidos universais?
Querem conhecer o espaço novo do poeta Tonho França, meu primo!!!!!????
O link é www.porlinhasetracos.blogspot.com
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 09h44
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Charada
dia sim, dia não
penso no fim de tudo
na poeira do fim dos séculos
dos séculos
e tomo duas decisões
dia sim
saboreio os frutos
e seus sucos doces
dia não
sorrio amargamente
da ironia desse gesto
dia sim
estou na existência
dia não
vivo minha ausência.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 12h55
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Vontade de desmanchar o “estabelecido”...
Branca de Neve revista
Branca de Neve, após ser beijada pelo príncipe, retornou da morte aparente, para grande alegria dos sete anões.
O príncipe a carregou em seu cavalo, seguido pelo cortejo dos sete amiguinhos.
No reino, realizou-se o casamento, com tanta pompa e suntuosidade, como nunca se vira antes, prolongando-se os festejos e as comemorações por dias de uma semana.
Após a lua de mel, o príncipe já se entregou ao passatempo favorito: a leitura e o estudo dos mestres da filosofia e dos poetas clássicos.
Branca de Neve, porém, entediava-se com o silêncio do real marido, cercado de livros, e se consolava brincando com os anões, pelos pátios do castelo.
O príncipe então passou a conduzi-la a museus e galerias de pintores consagrados, até que ela manifestou a preferência de ficar em casa, contemplando as flores e os pássaros que abundavam nas aléias dos jardins.
Imperceptivelmente, o casal começou a se afastar, chegando a uma distância de poucos e reticentes encontros e diálogos, mantendo apenas as aparências nos eventos formais.
Dentro de alguns meses, acentuou-se a palidez de neve da princesa Branca, até se revelar nela uma insidiosa moléstia que a consumiu rapidamente, levando-a à morte.
Os anões se desesperaram e rogaram ao príncipe para que a beijasse, como antes, na esperança de um novo despertar.
Mas, o beijo dele desta vez não surtiu efeito, porque seus lábios haviam esquecido a magia do antigo amor.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 15h00
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Rua revisitada
desci a ladeira moderna
pisando em pedras antigas
que meus pés preferiam
as janelas não me sorriram
nem acenaram as cortinas
na cena muda,
a saudade não fez ruído
nem dramatizou
na minha varanda
que desapareceu
no alinhado do casario
agora vertical
apenas vozes metálicas
de veículos sem rosto
me ultrapassaram na pressa
da minha vagareza
não me esperavam
nem a bola colorida
nem meu cachorro miúdo
que deixei mortos
na varanda demolida.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 17h44
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Perícia
Meu avô espiava as nuvens, calado, concentrado, pescoço para trás, e parecia fazer cálculos. E vinha a previsão meteorológica correta, a maior parte das vezes. Talvez com uma margem de erro próxima à das moderníssimas ferramentas da meteorologia atual.
Para meu êxtase, os olhos dele eram telescópios mais formidáveis que os Hobbles da nossa era.
Acontece que não eram só as retinas que ele colocava em funcionamento. Uniam-se a elas, no exame da atmosfera, a antiqüíssima ancestralidade humana e a intuitiva forma de meu avô lidar com os fenômenos da natureza.
Ele captava, mais do que sabia, os imperceptíveis sinais que a máquina do mundo emite nas transformações climáticas.
A temperatura do vento ele a sentia pelas narinas. Meu avô cheirava o vento. E pelo olfato desvendava astuciosamente a chegada dos pingos da chuva ou os eflúvios do ar carregado.
Enxergava as alterações dos vôos das aves e a movimentação dos insetos. Por aí, prenunciava estiagens, calmarias, tempestades.
Eu punha crédito na sua boca de profecias porque nem fora apresentada às ciências, quem sabe.
Mas, ainda hoje, quando busco nas páginas da tecnologia os traços do tempo, sinto saudade dos boletins meteorológicos do meu avô, soprados diretamente do misterioso enigma da natureza.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 20h48
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Escrito por Dora Vilela �s 15h11
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