Estória de rebeldia

 

O pai e a mãe conversavam.

Ouvia no avesso da tranqüilidade aquelas falas que eram sobre ela. Palavras soltas, cirurgia, freqüência de febre, essa menina.

Sabia que o discorrer deles envolvia assunto fora do cotidiano.

Impressionável, medrosa de bruxas e sacis, de trovoadas, até de fogos de artifício, apanhava no ar aquele linguajar de ditos formando uma teia.

Falar de febre ela entendia. Vivia com a garganta inflamada por qualquer chuvinha escorrendo sobre o corpo suado de pular nas brincadeiras. Vinha a febre alta, não conseguia engolir, doía desde o pescoço até o cérebro.

O tio-médico chamado. Receitas de gargarejos, pastilhas, injeções. O pior mesmo era a febre. Delirava, via ondas do mar avançando, sentia a cama encolher e esticar.

A mãe, na aflição, resmungando, miudamente, essa menina sofre com a garganta.

Sim. Os cochichos esquisitos discutiam sobre ela. O tio-doutor já dera o palpite de sanar aquela encrenca dolorosa.

Cirurgia era a palavra mais repetida na conversa. Mesmo assombrada, a menina adormeceu, sacudida de pesadelos, como na febre.

Manhãzinha, a mãe entretida nos arranjos do café, ela pulou da cama e foi sentar-se na cozinha.

Sem muito custo, jogou a pergunta da estranheza da palavra. Mãe, cirurgia é remédio ruim?

Olhando-a, espantada, a mulher já medira a intenção. É. É um remédio amargo que se toma no hospital, porque precisa ficar dormindo para engoli-lo.

Não acreditou. E agora a palavra era outra: hospital. Onde nunca a deixavam entrar, prá visitar a avó, que de lá voltara branca, como cera, colocada entre flores, num caixão, no meio da sala.

E resolveu na hora. Não vou ao hospital. Tomo aqui mesmo.

A mãe foi jeitosa com ela. Olhos nos olhos. Se queria sarar de vez das febres e das ruindades da garganta, era só ir lá.

Não vou, nem amarrada. Hospital era onde as gentes morriam.

Pois não foi. Fez tantas e tantas choradeiras. Um dia, fugiu. Ficou sentada na calçada, bem longe de casa. Pregou um susto em todos.

Hospital, não vou.

O tempo escorregou sobre as infecções que ainda apareciam. Mas, ela nem reclamava. E não fez cirurgia.

Na altura da adolescência, cessaram as crises de amigdalite.

Ela venceu o desafio.

Viriam outros. Com choradeiras e fugas, nem sempre ela os evitaria.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 13h42 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

Meus amigos caríssimos! Agradeço as palavras dos comentários. E aviso aos "reclamantes"...rs que vou visitá-los.

Hoje, começo, postando umas linhas.

E depois, reinicio as "conversas"...

Beijos saudosos.

 

 

Dificuldade

 

escrevo entalhando,
lucidez excessiva
quem dera a embriaguez
e o sonâmbulo viver!

o sol me nasce
já vira idéia,
a chuva goteja
e meu filtro a retém,
a flor delicada
despetala ao meu toque,
vislumbro o etéreo,
busco a leveza.
sonho transparências,
mas, calco o inefável
em vocábulo duro
e o maculo na essência.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 11h48 [   ] [ envie esta mensagem ]




Oi, pessoal querido. Dei folga para os Pretensos Colóquios. Não vou atualizar por algum tempo.

Mas, continuo visitando suas casas.

Podem me esperar...

Beijos.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 12h28 [   ] [ envie esta mensagem ]





DESCONHECIDO

 

meu mistério, acalento-o

alimento-o e ele me presenteia

com seus sobejos, suas migalhas

 

na minha ordem, sinto falta dele,

então vivo com ele,

rasgada, dilacerada,

 

mas eu o amo, porque ele me identifica

meu mistério, meu enigma,

meu impulso vital...

 

não o conheço, não dialogamos.

vislumbro-o em relâmpagos raros

e tênues arrepios

 

convivemos e ele me nomeia,

ele me diferencia,

ele me reverencia

 

sofro e sangro,

mas agradeço as veredas

que ele me prenuncia

 

meu mistério, metade de mim,

que sou ele inteira.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 09h31 [   ] [ envie esta mensagem ]




Revolta

 

eis um poema escandaloso

de palavras que são cinzas

vindas do fogo do universo

 

um poema caudaloso

que cuspa as dores sem pejo

que arregace a face dos desejos

 

um poema descuidado das singelezas

que derrame sua eloqüência

das fomes e saciedades

 

um poema que entristeça

quem não entende(por bem) a sábia aspereza

da vida de sol e nevasca

 

um poema que tem águas

que me levaram os anéis

deixando-me a nudez

 

um poema que me lave

que me enxágüe

e me esfole a pele

 

um poema que me vomite

e me livre do mundo que engoli.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 14h41 [   ] [ envie esta mensagem ]




Localização

 

 

 

 

Vivemos da infância, sendo que quando estávamos dentro dela, não tínhamos essa consciência. Cada ato de hoje é recolhido de lá, da meninice que florescia incauta e poderosa.

Lá é que nosso corpo experienciava o fluir do tempo, colhendo as sensações, as densidades das coisas, que conseguíamos absorver, sem tentar penetrá-las à força do pensamento. Víamos um cavalo e ele era uma descoberta, um espanto, e apreendíamos seu jeito de estar na realidade, sem que outras idéias pré-fabricadas toldassem nossa alegria de vê-lo. Deparávamos com o mar, e a visão dele nos engolia, nos fascinava, nos embevecia, apenas porque ele era aquilo: uma imensidão de água, ruidosa, em constante mobilidade, porque eram as ondas que nos davam sua mais próxima noção. Não havia a quantidade de informações vindouras que, de alguma maneira, deturpariam o sentido primeiro e básico. O mar não virara símbolo ainda. Era só o que ele é: água salobra, preenchendo a superfície da terra e se enovelando, se balançando, tão distinto das outras águas grandiosas, como as dos rios que seguem outras leis.

Descobertas da fase infantil são encontros com a raiz das coisas, dos fatos, dos fenômenos. Nossa inocência é edênica e nossa linguagem, no tempo dela, é gestual e atávica. A criança que percebe um inseto verde, pela primeira vez, emite sons, de puro êxtase, que já constituem a linguagem a se manifestar, porém límpida, pessoal e universal, ao mesmo tempo. Não há um elemento anterior, nem censura, nem limite, que a oriente nessa exaltação. Há apenas a primitividade do ser em face do desconhecido. E as coisas existentes estão expostas e nuas, à frente das pupilas virgens. Um muro tosco provoca o enlevo infantil. Uma pedra qualquer dispara a atenção do pequeno ser humano. E essa pureza de olhar  e ver privilegia a etapa mais livre que já pudemos alcançar, existindo...

Então, o mundo se estende intacto diante de nossa puerilidade. Depois é que ele vai ficando opaco, porque a sensibilidade vai se amortecendo na repetição do olhar, o hábito mental vai se estabelecendo, o brilho do novo vai se gastando. A desatenção pelo “já visto” chega de mansinho e, de repente, desfilamos entre as mesmas realidades sem notá-las. É necessário muito enfeite e rebuscamento e escândalo e excesso  e tumulto...para o humano ser adulto se surpreender. O mistério delicado das coisas naturais e simples deixa de causar sensação e precisa causar sensacionalismo. E mesmo com a infância ressoando, numa concha oculta, o homem, sério agora, não a ouve, devido ao ruído ensurdecedor da natureza sofisticada, a única que agora lhe resta e onde vai exercer seu triste ofício de viver.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 09h36 [   ] [ envie esta mensagem ]







 
 
Outros Textos:
  01/08/2009 a 31/08/2009
  01/07/2009 a 31/07/2009
  01/05/2009 a 31/05/2009
  01/04/2009 a 30/04/2009
  01/03/2009 a 31/03/2009
  01/02/2009 a 28/02/2009
  01/01/2009 a 31/01/2009
  01/11/2008 a 30/11/2008
  01/10/2008 a 31/10/2008
  01/09/2008 a 30/09/2008
  01/08/2008 a 31/08/2008
  01/07/2008 a 31/07/2008
  01/06/2008 a 30/06/2008
  01/05/2008 a 31/05/2008
  01/04/2008 a 30/04/2008
  01/03/2008 a 31/03/2008
  01/02/2008 a 29/02/2008
  01/11/2007 a 30/11/2007
  01/10/2007 a 31/10/2007
  01/09/2007 a 30/09/2007
  01/08/2007 a 31/08/2007
  01/07/2007 a 31/07/2007
  01/06/2007 a 30/06/2007
  01/05/2007 a 31/05/2007
  01/04/2007 a 30/04/2007
  01/03/2007 a 31/03/2007
  01/02/2007 a 28/02/2007
  01/01/2007 a 31/01/2007
  01/12/2006 a 31/12/2006
  01/11/2006 a 30/11/2006
  01/10/2006 a 31/10/2006
  01/09/2006 a 30/09/2006
  01/08/2006 a 31/08/2006
  01/07/2006 a 31/07/2006
  01/06/2006 a 30/06/2006
  01/05/2006 a 31/05/2006
  01/04/2006 a 30/04/2006
  01/03/2006 a 31/03/2006
  01/02/2006 a 28/02/2006
  01/01/2006 a 31/01/2006
  01/10/2005 a 31/10/2005
  01/09/2005 a 30/09/2005
  01/08/2005 a 31/08/2005
  01/07/2005 a 31/07/2005
  01/06/2005 a 30/06/2005
  01/05/2005 a 31/05/2005
  01/04/2005 a 30/04/2005
  01/03/2005 a 31/03/2005
  01/02/2005 a 28/02/2005
  01/01/2005 a 31/01/2005


Links:
  uol
  Adélia
  Ádina
  Ana Lúcia
  Ana poeta
  Aninha
  Beti
  Clarice
  Claudinha
  Cris
  Crys
  Dauri
  Diovvani
  Elza
  Ery
  Fabrício Carpinejar
  Francisco Dantas
  Francisco Sobreira
  Grace
  Jacinta
  Jens
  Jota
  
  Lino
  Lívia
  Luma
  Manoel
  Márcia Clarinha
  Maria Augusta
  Marco
  Miguel
  Mônica M.
  Nora
  Pedro Pan
  Renato
  Saramar
  Tânia
  Yvonne
  Wilson
  Zeca
  Shi
  Boca
  Bisbilhoteira
  DO
  Soninha
  Fernanda
  Cecília
  Bia
  Adelaide
  Eurico
  Bosco
  Mai
  Élcio
  Joice
  Dácio(novo)
  Ilaine
  Edilson
  Euza
  Sandra
  tb
  Moacy
  Simone
  Amarísio


VOTA��O
 D� uma nota para meu blog!







O que � isto?