Semelhança

 

esvoaçando sem cessar

balé intuitivo

natureza dele,

voluteia o colibri

 

apressado de flor em flor

penetra todas

se enlanguesce no mel

 

meu desejo gruda nele

de viver tal e qual

 

há esse passarinho

a procurar coisa em mim

 

mas, não encontra o doce melado

só o sumo salgado

que sabe melhor

num viver temperado.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 12h03 [   ] [ envie esta mensagem ]




 Sentimento

 não te exaltes, coração,

há palavras inacabadas,

como feto em formação,

às vezes, só esperam

a própria geração,

permanecem quedas,

guardadas no silêncio,

ansiosas pelas mãos

que as farão reviver,

as minhas mãos,

as outras mãos,

que palavras tentam escrever!

tentam soprar-lhes a vida

impulsioná-las em autoprojeção,

elas se restringem e até cabem

no meu e no outro pensamento,

se enlanguescem conforme o manejo,

se enrijecem em contrária direção,

meu coração, não te envolvas com as palavras,

não te entregues nestas mãos,

conserva teu silêncio,

acalenta teu desassossego,

nada te servirá

de desequilibrada ponte,

tua maior sensatez

é teu inquieto segredo,

teu perpétuo movimento

em explosão no meu peito.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 21h57 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

Uma tarefa

 

Recebi um "desafio" da amiga Beti, do blog : www.facesdeeva.blogspot.com

 

Regras:

  • 1- Agarrar o livro mais próximo.
  • 2- Abrir na página 161.
  • 3- Procurar a quinta frase completa.
  • 4- Colocar a frase no blog.
  • 5- Repassar para cinco pessoas e avisá-las.

 

O livro é "Dois irmãos", de Milton Hatoum.

A frase é:

" Já estava passando da conta, e eu torcia para que mergulhasse em suas noitadas, sem fim, oxalá se embriagasse de uma vez por todas e nunca mais se erguesse da rede vermelha".

 

Repasso para:

 

Cris

Adélia

Dauri

Ana poeta

Claudinha.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 13h05 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

Para os amigos da minha geração.

 

 Beatlemania

 ouvia os Beatles,

e me punha afoita

a comprar discos,

em decorar letras,

distribuía as canções

para cada intenção de momento,

nesta fenomenologia,

encaixei Beatles,

noite e dia,

dormi com o quarteto,

nas paredes do meu quarto,

chorei Lennon morto,

mais que podia imaginar,

depois me acostumei,

e não mais me importei

com o trabalho do tempo

que me levou os demais,

necessito ouvir os Beatles,

a completar minhas lacunas,

no momento que me falta

a canção órfã de pais,

recrio o conjunto inteiro,

chamo os mortos,

canto junto....

e eles voltam

se remoçam,

nas paredes do meu quarto,

nos meus dias,

meus momentos,

meus meninos

imortais.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 10h12 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

Mistificando

 

pensar a vida não é viver,

é um lento enganar-se,

um vago ocultar-se

de si mesmo, do outro,

 

não se vive no livro,

na página alheia,

na vida emprestada,

na vizinha paixão,

 

não se escolhe credo,

nem hora, nem vez,

a história se faz

no enredo da ação,

 

porém, são tais enganos

engenhos preciosos

que se tecem na ilusão

 

são como o gozo do amor_

profundos, instantâneos, vitais_

aquecem, sim, mas, passam.

 

Pensar a vida é apenas

sobreviver.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 10h20 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

Convalescente

 

e vou vivendo,

além do caminho,

malgrado os tropeços,

além das feridas

 

escolho jeitosa

os paliativos, as muletas,

as compressas

 

vou simulando a recuperação,

aqui uma canção,

acolá, um poeta

 

de cancioneiros e poesia,

de sonho e utopia,

forrei o solo, ergui o telhado,

preenchi as paredes

 

com cautela, deslizo meus chinelos,

na surdina, afino meu piano,

prá não espantar os fantasmas,

prá não despertar a dor

 

e, com mão trêmula ainda,

rego as flores do meu jardim.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 15h32 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

Ouvindo Debussy

 

 

Nessa indolência que o som me envolve, desmancho-me, aquosa, em direções tontas.

Tal qual ébria, liquefaço as linhas do pensamento. É um jeito de não pensar. Não governar a lógica e descobrir o absurdo atrás dela. Sou um grão tão diminuto envolvido em roupagens pesadas como chumbo. E meu grão sustenta esta embalagem. Digo mais. Ele aprendeu a depender dela e a amá-la.

Essa armadura não me permite encostar nesse grão, nesse cerne, que, sem ela, vai doer como nervo exposto. Uma dor fina e incontrolável.

Tentando não pensar, encontro uma forma de me aproximar desse núcleo que julgo dolorido. Ele é a matriz de todas as minhas aquisições. E, quando nu e descoberto, fica gelado e cintila a luz do nada que ele é. Se eu não pensar, posso surpreendê-lo em seu segredo visceral. Que seria como descobrir-me a mim, num encontro inaugural. Sinto-me, com relação a ele, da maneira como cada um sabe que possui uma nuca, mas, não consegue vê-la, mesmo num jogo de espelhos. Sei tanto de mim, mas, somente pelas vibrações do meu centro. Conheço-me por sinais. Meu pensamento não apalpa o insondável que lateja e sangra com as vivências que lhe enviam meus passos. Esse íntimo de mim engana minhas linhas de pensar. Não é por esse caminho que o encontrarei. Ele é só luz e sombra dessa luz. Não é dizível em símbolos de linguagem pensada. Ele é vazio, mesmo quando eu acho que o alimento.

Ouvindo Clair de Lune, entendi que minha existência é um conjunto de sons que ecoam no mundo, enquanto a partitura deles ficará talvez, sempre, oculta e desconhecida.

Amigos: o blog novo deu problemas. Voltei para o antigo...

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 20h26 [   ] [ envie esta mensagem ]







 
 
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