Foto de Sebastião Salgado

Tatuagem do mundo

 

meu poema narcisista

recolhe, no entanto,

as dores dos caminhos

 

sofre pelo soldado que tomba

o peito aberto em púrpura rosa

o sangue a jorrar em solo alheio

 

chora meu verso

pela Mãe-África

de filhos degenerados

que gritam em mim

 

treme meu poema

nas linhas que não alimentam

os famintos de pão

 

minha poesia narcisista

soluça em cada leito enfermo

em cada olhar pálido de susto

 

enrouquece o canto

doendo no desencontro

dos excluídos do amor

 

e se cobre de cinzas

a cada surdo amanhecer

com pássaros mortos

e sol de luto.

 

Porque o mundo sou eu.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 09h38 [   ] [ envie esta mensagem ]




Parabéns  a  todos os blogueiros! Hoje é o dia dedicado  a  cada um de nós!

Partida

 

 

vago pela cama macia

branca,imensa, fria,

sem véu,sem cortina,

despida,nua, incontida

 

no côncavo do leito

seu corpo se deita ainda,

e eu aspiro entre soluços

sua inútil presença vazia

 

no desencontro das horas

nossas almas se bastavam

entre ardências e procuras

nas dobras das auroras

 

não são adeuses que doem,

mas são as lutas infindas,

inexplicadas, mal-vindas

 

minhas lágrimas por ventura

batiam na estátua pura

em que se transformou seu corpo

imerso na nostalgia

 

nossos sonhos restituídos

para meus sonhos apenas

refluíram, e, de manso,

se esfumaram na partida

 

de doído, o que ficou

foi o vazio, o oco, o sem sentido,

onde, embora, outrora, descabido,

cabia você, como escolhido.

Dora Vilela

 



 Escrito por Dora Vilela �s 11h37 [   ] [ envie esta mensagem ]




Posseira

 

meus olhos retornam sempre

impregnados das coisas

trago impresso o sol da tarde

das colinas de um passado redivivo

 

o capim rasteiro e os animais bovinos

nenhuma urgência...

 

conduzo em mim as sombras vagas

dos respingos solares

no musgo das paredes

 

os arquejos do entardecer

as vozes do arvoredo

circundante da casa velha

 

meus olhos não se esquecem

na memória triunfante

os instantes que só

e particularmente

pertencem

àquela que ainda sou eu.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 20h46 [   ] [ envie esta mensagem ]




Para a Adélia, minha amiga e meu precioso estímulo para escrever aqui!

 

 

Musas alheias

 

 

 Não faço versos como quem morre, 

antes neles me renasço,

e aproveito prá fingir

na afirmação da verdade.

 

Não contesto que o amor

seja infinito enquanto dure,

mas prefiro a eternidade      

fora do tempo e da dor.

 

Gasto horas pensando um verso

que a pena nem chega a escrever.      

No tormento destas horas

me perco no desencanto.

 

As aves que gorgeiam em minha terra

talvez me tragam descanso,

mas minha alma errante e erma 

mais se dispõe ao degredo.

 

Não discordo dos poetas,

- nem poesia aceita acordos -

antes lhes invejo as musas

prá mim tão surdas e mortas.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 13h22 [   ] [ envie esta mensagem ]




Criação

 

 

Tarde de sol preguiçoso,

pouca propícia aos vôos altos,

e é nela que organizo meus

planos, ainda que parcos e egoístas.

Ao redor, vida rasteira,

cozida de poucos fenômenos

e plena de sonhos anônimos.

Num odor de refeição,

num palmo de canteiro florido,

num canto de parede sem reboco,

os desejos embotados se colorem...

O pensamento fabricando o que é feito de vácuo,

delineando vagarosamente os contornos.

preenchendo os vazios com as cores fortes,

inventando os desnecessários e os impossíveis.

 Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 15h28 [   ] [ envie esta mensagem ]




Sem rodeios

 

 

venha, meu amado,

se achegue sem culpa,

esqueça a burocracia,

nosso código de leis

está escrito nas estrelas,

venha me achar escondida,

nos folguedos que já brincamos,

visite minha geografia,

se instale na minha planície,

venha, amado meu,

tão antigo e novo...

me conte suas histórias,

sem receio das lágrimas ciumentas,

me diga por onde andou,

ou não me conte nada...

retome o que é seu,

desperte meu ser adormecido,

tome posse de suas terras,

que ficaram improdutivas,

e hoje se abrem em flores,

que minha boca lhe oferta.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 10h09 [   ] [ envie esta mensagem ]




Inevitável

 

 

 

As pessoas passam na calçada, pisam o chão que não é mais solo, e não tocam a sua semente.

O progresso é o senhor dos tempos e propõe novas dimensões.

Minha mão toca o espaço entre os homens e agarra o ar denso das sensações indizíveis.

Uma orquestração se ergue dos sons ainda desencontrados.

Cruzamentos sem sentido para as máquinas que conduzem homens,

luzes simétricas, mensagens convulsivas  que escorrem para o supérfluo.

Máscaras cansadas, falas exaustas, saudades do próprio ser.

Onde me escondi, onde se escondeu o princípio de tantas armações e molduras?

Imposições tão desapercebidas, mas as pessoas prosseguem, desprovidas de suas armas ancestrais.

Sigo, também, solidária e amiga, sem fibra e sem ossos.

Minhas ofertas se perderam e falharam na meta longínqua.

Doei meus sonhos, emprestei minha lança, meu rumo apaguei e me fiz feliz.

Falo às pessoas e apenas as amo.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 18h32 [   ] [ envie esta mensagem ]




Era assim

 

meu pai de terno

( não conheceu outro traje)

saía, bom-dia, ao trabalho

minha mãe, em seguida,

bonita, ia ao encontro

dos analfabetos

que ela trazia à vida dos livros

minhas irmãs dormiam

eu, de olhos mal abertos,

ouvia Maria, na cozinha

a água escorrendo

na louça

ela nos chamava

abrindo janelas

e pequeninas, buliçosas,

reunidas, rumorosas,

tomávamos juntas,

sem pai e mãe,

o café da manhã azul.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 15h46 [   ] [ envie esta mensagem ]







 
 
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