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Momento de nudez 

Sorrio de rosto apenas. É mimetismo de ver o lado risível da estreita realidade que me habita. Por dentro é choro puro de bicho acossado em chão ralo. A amplidão envia claridades cruzadas nas grades. Transpiro o sangue dos culpados inocentes, que sentem o calendário vazando entre as mãos inertes. O tempo age incessante descarnando os ossos e as idéias. Migalhas escorregam dos visitantes alados que sempre se sabem benvindos. As canções sem linguagem transpassam as paredes com os sons do universo indomável e preenchem as lacunas sedentas. Minha boca se multiplica, alimentando-se ávida e precavida das bocas que lançam a saliva da existência. No peito arrebentado de amor descabido, o coração expulsa odes armazenadas nas noites compridas. Meu animal queixa-se do ar rarefeito, querendo gozar delícias extra muros. A consciência sabidamente poupa esses esforços que não passarão da primeira esquina da cidade dos homens. Meu cárcere é dentro de outro que é dentro de outro. Há que se retirar as escamas, descascar o falso brilho da alma que se revestiu de andrajos de purpurina e se pavoneia como dama medieval demente. As crenças se retiraram e esfriaram o piso da masmorra. Conto com minha carcaça adejante que sobrevoa rasteira e aproveita os restos ao seu alcance. Não grito por não acreditar em socorros e sei que os auxílios são o escárnio dos agiotas. Nem acelero meus desejos que se satisfazem sobriamente com a opção do pão de cada dia, sem caviar e champagne. Viver é escolher. Escolher é perder. Mas, se nascer não foi minha escolha, porque o resto tem que ser responsabilidade minha?

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 11h16 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

 

Papo furado( segunda vez)

 

 Falta tempo... Como escuto essa frase! Como leio essa queixa! Mas, o tempo não é igual para todos? Há que se restringir essa frase: falta tempo para quê? A resposta agora poderá revelar o universo do queixoso.

Se alguém não tem tempo para uma conversa “jogada fora” ( para mim nenhuma conversa merece ser jogada fora...se é “conversa” mesmo), não tem tempo para ver um pôr-do-sol, se não encontra tempo para ouvir uma música, se não arranja tempo de saber dos amigos, se não “gasta”  tempo em sorrir ao ver uma criança cambaleando, nos primeiros passos, não quero conhecer esse alguém.

De que forma está empregado o tempo desse alguém?  

A vida é dura, “ o pão de cada dia é ganho com suor”, a luta é renhida. Mas, não é pelo pão de cada dia  que se luta. É pela sobra dele, muita sobra... O capitalismo é o dono do tempo. Capital, lucro, reinvestimento, mais lucro. Tempo é dinheiro.

Consumismo é uma droga poderosa. Também dona do tempo. Dissimulada, camuflada, sorridente de creme dental, de brilho inox e metal faiscante.

Moda, corpo saudável, haja tempo!

Informações a todo minuto, alta e baixa das ações, é tempo demais a devorar as horas...

Ameaças de bomba. O mal se infiltrando no Oriente e assanhando o Império do Ocidente. Tempo de esperar e torcer para o desenlace, enquanto o sol nasce e se esconde, de um lado e do outro.

Preencher o tempo é escolha. É postura vital.

Vive o organismo humano com uma azeitona por dia. Parece absurdo. Talvez seja. Mas, é uma metáfora de quão pouco demanda o homem para ficar vivo, sem as sobras, nas quais investe tempo.

Cobre-se o corpo com poucos metros de pano. O resto é sobra.

Não é apologia de voto de pobreza. É só um retrato da perda de tempo...

Sexualidade é coisa boa. Sexo desenfreado denuncia outras fomes, com as quais se perde um tempo enorme

Não quero conhecer alguém que não tenha tempo para perder ...me  beijando mil vezes, a cada dia...

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 21h31 [   ] [ envie esta mensagem ]




Escolhas

 

não posso cantar as ruas,

não as vejo, nem demoro

nelas o meu sentido,

nem as céleres avenidas,

ou as mortes-auto-estradas

são meu percurso na vida,

não enxergo as galerias,

bulevares e esplanadas,

deslizo por baixo das pontes,

sobrevôo os viadutos,

não passeio em passeios públicos,

e abomino os lugares comuns,

me fecho ante as vias todas

que me levam onde é prá ir,

antes, as trilhas ceifadas,

cortadas nos canaviais,

os atalhos serpenteados,

as sendas dos vendavais,

na rota das ondas,

nas margens dos rios,

meus pés já me contam

o ansiado caminho.

Dora Viella



 Escrito por Dora Vilela �s 11h19 [   ] [ envie esta mensagem ]




Para o meu amigo Dauri, que se diz “não-poeta”

 

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la.

Alberto Caeiro

 

 

Se penso,

não compreendo

mas, me prendo

nas algemas das letras,

se me deito ao sol

fico feliz

no intercâmbio

e entendo,

mas, não me explico

e ninguém o saberá

pela minha boca,

se amo

fico inocente

e muda

porque amar

é como deitar

ao sol

e não falar nada.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 14h16 [   ] [ envie esta mensagem ]




Ao meu amigo Eu-lírico

 

 

 

 

Criando “neologismos”, na relembrância de Guimarães Rosa

 

 

 

Jeito de enganar a angústia existencial

 

 

 

 

Quando alguma dor dá de doer em lâmina de aço, me encomprido em pensamentos, daqueles indirecionados e torcidos feito cobras coleantes, e nem sei onde é que se iniciam e parecem assim filosofias que desde que o mundo nasce estão largadas por aí e é só a gente ficar doente de existência já lança a mentalidade nelas e finge que são novas e frescas e  tão particulares, quando, de verdadeiro mesmo, são é antiqüíssimas e gastas.

Reinventando o pretérito e remendando a trilha andante, entro onde não sou convidada e ponho a envergadura de tudo o que é vivente, que experimentar o alheio faz bem no se provar  divergências da natureza.

Viciada em linhas retas, me surpreende a calmaria repousada dos giros do pensar que penetram no mendigo desmascarado que só tem a cama molhada de lua e o gosto de comer intermitente, na paciência tibetana, e nem monge ele treinou de ser.

O fraterno dele transita sutil na idéia relanceada que a gente sempre guarda não sei em que intimidade do eu-próprio e que liga em corrente de essência esse desvalido ao nosso pé.

Sou refém desse frágil que me segura e me forceia no ponto de vista da desnecessidade do ouro e das sobras, porque as horas de existenciar carecem só de parca e pequena quantia de teres e haveres.

Minha dor iniciante se afina, no princípio de esvoaçar com tais divagamentos, e meu mendicante irmão me solta em estado esvaziado do fardo das esperas vantajosas que já são em si  uma forma de espoliar o bem da vida.

Meditadamente, o sofrer escorrega manso visto que adveio na duplicação pela in-sapiência que a gente vai alargando nos passos contrários, que de sabedoria desse teor é que tinha que ser a caminhada do devir.

Palavrosa é essa teia de arranjo das idéias voadoras e outros meios não existem  de arrebanhá-las a não ser as ferramentas dos verbos.

Não é que a dor passa, mas o pisar é macio, quando se interna na vida, com porte de coisas de proveito na bagagem  do dia-pós-dia.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 18h20 [   ] [ envie esta mensagem ]




Renoir

 

Sensibilidade

 

 

Às vezes, viro só coração

e entendo a lágrima,

o aconchego, a alegria.

Fico sentimento cru,

e faço amigos,

faço versos,

faço risos.

Esqueço a dureza

do pensamento certo.

E me torno maleável,

canto em público

e em particular,

rezo ladainhas,

de joelhos no chão,

ou permaneço em pé,

como vestal,

protegendo meu fogo sagrado,

em vigília, em jejum,

na crença irracional.

Acolho as diferenças,

abraço a nudez,

e quero ficar assim,

assim, também nua,

e só coração...

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 10h35 [   ] [ envie esta mensagem ]




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Repentino

 

Sólida madrugada, esvaziada de desejos, nenhuma espera de sol sangüíneo, o céu manso em mim. Surpreendi o momento e o guardei fechado na mão; desnudei-o dos supérfluos, evitando, cautelosa, o movimento consciente. Momento meu de estar comigo, de agarrar o essencial, de mergulhar no abismo e de não retornar. No labirinto vem a dúvida_ nem sei se vale a pena melhor me conhecer. Quero ficar anestesiada. A força do momento não vem de mim, é um fiapo de luz, escapado do real, concerne a tudo o que me rodeia, mas não me inclui. O momento que apreendi_ gratuita oferta da madrugada_ não passou de um sussurro, ante o pleno grito da vida.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 11h42 [   ] [ envie esta mensagem ]







 
 
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