Conhecimentos fora da escola

 

Não debato temas, nem busco provas conclusivas.

Converso fiado com o peixe que lança o frouxo lampejo na superfície.

Lanço colóquios nas águas correntes e troco palavras à toa com estrelas.

Namoro feixes de nuvens esgarçadas e acabo sabendo tudo de quase nada.

 

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 22h44 [   ] [ envie esta mensagem ]




Expectativa

 

ele caminha, trôpego, direção da tapera

pés nus, anguloso solo,

sol a pino

o suor encharca

a veste de aniagem

a pele já tostada

useira e vezeira

da soalha do sertão

 

só a boca desdentada

esboça o avesso da desdita

num esgar de sorriso

contida alegria

 

é nascido um filho seu

menino-homem, um varão,

o messias encarnado

vai cumprir

sina outra

transformar a soalheira

enverdecer o sertão

 

assim sobrevive o homem

padecedor dessas plagas

sempre a ilusão incrustada

na vindoura geração.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 12h41 [   ] [ envie esta mensagem ]




Meu compromisso é com o vento

 

e suas andanças

não assino papéis de segurança

sou freelancer de vida

num projeto fantasma

que só requer

o brevê do curso

de ventanias.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 18h56 [   ] [ envie esta mensagem ]




Sorte

 

ela quer ser bailarina

a vida nos gestos justificada

alcançar a glória

no próprio corpo

vencer as questões

na ponta das sapatilhas

no meneio dos membros

na sutileza das mãos

horizonte único

significado total

 

quem não quer ser bailarina

que busque infatigável

onde colocar seu desejo

síntese da existência

que é sempre no plural.

Dora Vilela

 



 Escrito por Dora Vilela �s 10h09 [   ] [ envie esta mensagem ]




Didática

 

no riso

freqüentar névoa e cinza

nas lições das manhãs indesejadas

educar-se na esperança

do sol

apaziguar o pensamento

enegrecido ante a oclusão do azul

haverá sempre promessas implícitas

que o coração

não consegue alcançar

e o descanso no seio da Criação

na sábia, lenta e cíclica

Criação.

Dora Vilela



 Escrito por Dora Vilela �s 17h28 [   ] [ envie esta mensagem ]




Olá, amigos. Após os transtornos vencidos, muito saudosa, volto a escrever aqui. Agradeço-lhes os comentários, que, com vagar, vou responder, e reinicio com o texto que a FLIP me inspirou.

 

 

 

Resenha de Elza, a Garota

 

Sérgio Rodrigues, jornalista e escritor, vem alcançando seu justo lugar de renome nas Letras. Já lançou vários livros. Sua obra mais recente, “Elza, a Garota”, está sendo aclamada pelo público e pela crítica.

Complicado falar desse livro, que, em tão pouco tempo, recebeu tantas e tão entusiasmadas análises, comentários, observações e resenhas.

Entretanto, uma obra de valor literário é sempre passível de novas interpretações e suscita olhares diversificados.

O livro versa sobre o cruel assassinato de uma moça, perpetrado por membros do PCB, que a condenou como traidora, em 1936. A jovem, quase menina, segundo as versões, possuía o codinome de Elza e era amante do secretário-geral do Partido.

Esse crime foi “esquecido” pelos partidários das alas esquerdas e direitas da época, visto que incomodava a ambas, como demonstram as dificuldades do autor em levantar dados para a pesquisa.

A forma de que Sérgio Rodrigues lança mão para contar o trágico acontecimento talvez seja o que torna o relato digno de interesse, atenção e aplauso.

Trata-se de uma obra de ficção, em que o autor dá vida a vários personagens que transitam nas páginas, ao lado dos figurantes reais e participantes das ocorrências históricas.

O percurso do enredo se desenrola entre as investigações do crime, que o autor coloca em caracteres tipográficos destoantes daqueles das páginas ficcionais, e os desdobramentos que cada novidade encontrada provoca nos personagens.

A trama decorre a partir dos encontros entre o velho comunista, de mais de noventa anos, Xerxes, e o jornalista-escritor, Molina, incumbido da tarefa de escrever seu livro de memórias. Munido de gravador, o escritor passa dias e dias, ouvindo as narrações de Xerxes, antigo membro do PCB, testemunha ocular dos fatos, nos anos 30-40, da intensa atuação dos militantes políticos de várias fileiras e até mesmo um apaixonado de Elza, a qual permaneceu fiel ao amante, Miranda, até a morte por estrangulamento com uma corda de varal.

Num estilo ágil, sem pedantismo, a linguagem do autor flui e não pesa com as referências de nomes famosos, nem se detém nas interrupções das formas de diálogo com dois pontos e travessão.

Em nenhum momento se percebe um tom panfletário ou um engajamento em posições partidárias. Os depoimentos, muitas vezes emitidos por vozes contraditórias, são apresentados como se fossem questões em aberto para o juízo particular do leitor. A certeza do ato criminoso permanece, entretanto, havendo a prova oficial da exumação do cadáver, o local determinado onde foi enterrado o corpo, a correspondência entre Luiz Carlos Prestes, suposto mandante do crime, e os executores da moça.

E Sérgio Rodrigues cria um clima de mistério, que provoca sensação semelhante à da leitura de um romance policial. Há muitos detalhes incertos sobre Elza, sua personalidade e suas atitudes, apesar de que tudo leve a crer que ela tenha sido “uma inocente útil”, cuja morte se apresenta então revestida de uma crueldade maior. O personagem Molina se move numa realidade obscura, sem grandes perspectivas, a não ser a do livro que escreverá. Excetuando-se a namorada bonita e inteligente, Camila, que ele teme perder, a ambientação em que ele se insere sugere decadentismo, escassez de possibilidades, nuances de um certo clima “noir”, captado em situações de uma subjacente auto-estima negativa. Molina, apesar dos quarenta e três anos, se sente tímido e inseguro, diante do idoso senhor, Xerxes, nome pomposo do poderoso rei persa, que se impõe diante dele como “Totem” ou “Esfinge”, como o narrador o figura.

Xerxes, por sua vez, também possui uma história fantástica, que envolve codinomes, a troca de identidade com o irmão gêmeo, uma filha que surge no final, uma enorme fortuna amealhada, enfim, até a última linha, o livro revela traços de romance policial.

A história do assassinato de Elza poderia ser contada em um artigo jornalístico, objetivo e claro, mas, na sensibilidade criadora de Sérgio Rodrigues, se transformou num intrigante romance de mais de duzentas páginas de puro exercício literário, cuja leitura permanecerá a longo prazo gerando frutos duradouros

de reflexão e deleite estético.

Dora Vilela

 

 

 

 

 



 Escrito por Dora Vilela �s 12h36 [   ] [ envie esta mensagem ]







 
 
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