
Olá, amigos. Após os transtornos vencidos, muito saudosa, volto a escrever aqui. Agradeço-lhes os comentários, que, com vagar, vou responder, e reinicio com o texto que a FLIP me inspirou. Resenha de Elza, a Garota Sérgio Rodrigues, jornalista e escritor, vem alcançando seu justo lugar de renome nas Letras. Já lançou vários livros. Sua obra mais recente, “Elza, a Garota”, está sendo aclamada pelo público e pela crítica. Complicado falar desse livro, que, em tão pouco tempo, recebeu tantas e tão entusiasmadas análises, comentários, observações e resenhas. Entretanto, uma obra de valor literário é sempre passível de novas interpretações e suscita olhares diversificados. O livro versa sobre o cruel assassinato de uma moça, perpetrado por membros do PCB, que a condenou como traidora, em 1936. A jovem, quase menina, segundo as versões, possuía o codinome de Elza e era amante do secretário-geral do Partido. Esse crime foi “esquecido” pelos partidários das alas esquerdas e direitas da época, visto que incomodava a ambas, como demonstram as dificuldades do autor em levantar dados para a pesquisa. A forma de que Sérgio Rodrigues lança mão para contar o trágico acontecimento talvez seja o que torna o relato digno de interesse, atenção e aplauso. Trata-se de uma obra de ficção, em que o autor dá vida a vários personagens que transitam nas páginas, ao lado dos figurantes reais e participantes das ocorrências históricas. O percurso do enredo se desenrola entre as investigações do crime, que o autor coloca em caracteres tipográficos destoantes daqueles das páginas ficcionais, e os desdobramentos que cada novidade encontrada provoca nos personagens. A trama decorre a partir dos encontros entre o velho comunista, de mais de noventa anos, Xerxes, e o jornalista-escritor, Molina, incumbido da tarefa de escrever seu livro de memórias. Munido de gravador, o escritor passa dias e dias, ouvindo as narrações de Xerxes, antigo membro do PCB, testemunha ocular dos fatos, nos anos 30-40, da intensa atuação dos militantes políticos de várias fileiras e até mesmo um apaixonado de Elza, a qual permaneceu fiel ao amante, Miranda, até a morte por estrangulamento com uma corda de varal. Num estilo ágil, sem pedantismo, a linguagem do autor flui e não pesa com as referências de nomes famosos, nem se detém nas interrupções das formas de diálogo com dois pontos e travessão. Em nenhum momento se percebe um tom panfletário ou um engajamento em posições partidárias. Os depoimentos, muitas vezes emitidos por vozes contraditórias, são apresentados como se fossem questões em aberto para o juízo particular do leitor. A certeza do ato criminoso permanece, entretanto, havendo a prova oficial da exumação do cadáver, o local determinado onde foi enterrado o corpo, a correspondência entre Luiz Carlos Prestes, suposto mandante do crime, e os executores da moça. E Sérgio Rodrigues cria um clima de mistério, que provoca sensação semelhante à da leitura de um romance policial. Há muitos detalhes incertos sobre Elza, sua personalidade e suas atitudes, apesar de que tudo leve a crer que ela tenha sido “uma inocente útil”, cuja morte se apresenta então revestida de uma crueldade maior. O personagem Molina se move numa realidade obscura, sem grandes perspectivas, a não ser a do livro que escreverá. Excetuando-se a namorada bonita e inteligente, Camila, que ele teme perder, a ambientação em que ele se insere sugere decadentismo, escassez de possibilidades, nuances de um certo clima “noir”, captado em situações de uma subjacente auto-estima negativa. Molina, apesar dos quarenta e três anos, se sente tímido e inseguro, diante do idoso senhor, Xerxes, nome pomposo do poderoso rei persa, que se impõe diante dele como “Totem” ou “Esfinge”, como o narrador o figura. Xerxes, por sua vez, também possui uma história fantástica, que envolve codinomes, a troca de identidade com o irmão gêmeo, uma filha que surge no final, uma enorme fortuna amealhada, enfim, até a última linha, o livro revela traços de romance policial. A história do assassinato de Elza poderia ser contada em um artigo jornalístico, objetivo e claro, mas, na sensibilidade criadora de Sérgio Rodrigues, se transformou num intrigante romance de mais de duzentas páginas de puro exercício literário, cuja leitura permanecerá a longo prazo gerando frutos duradouros de reflexão e deleite estético.
Dora Vilela
Escrito por Dora Vilela �s 12h36
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